Domingo, 23 Setembro 2018

Direito e Avesso (49)

Direito e Avesso

22/06/2014 - OS VENTOS DE MAIO

Escrito por Domingo, 22 Junho 2014 12:23

OS VENTOS DE MAIO

                   Nas minhas últimas vindas a Colinas, senti na pele o vento que caracteriza o fim da estação das chuvas, o nosso inverno. Ele sempre se inicia no correr do mês de maio, quando se dizia que “chegado o vento geral, a chuva vai embora”. Mesmo assim, as maiores enchentes, de que me lembro, ocorreram no neste mês. Era quando o Itapecuru lavava a ponte de madeira e o riacho Curimatá esnobava as cercas e as palmeiras, arrasando-as e arrastando-as em seu leito,  muitas vezes, paralisando o fluxo das águas do rio, que se encorpavam  da “barra do riacho” para cima. E as curimatás,  desovadas, desciam para ser presas nas redes.  

 

                   Com a chegada do vento geral, começavam o frio, que marcava as noites das festas de São João; a cerração, - por nós chamada de “neve”, ao invés de névoa -, que reduzia a visibilidade das ruas; e a brincadeira de soprar, para sair fumaça da boca, com o choque térmico. E assim se ia, até meados de agosto, quando o vento, agora quente, provocava redemoinhos, levando os chapéus e as sombrinhas, numa espiral de poeira, que seguia no rumo da beira do rio.

 

                   O vento que, agora, me afagou a face é aquele mesmo que me fazia soltar papagaios de papel. Soltar papagaios, curicas (papagaio com rabiola) ou morcegos (papagaio com papel solto, que fazia barulho) era diversão de crianças e rapazes, no mês de maio. Estes empinavam, sozinhos, os seus, soqueando as linha. As crianças brincavam em parceria, pois era necessário que um colega segurasse o papagaio, acima da cabeça, para o outro puxar a linha com força ou sair correndo para o brinquedo subir. E, quando o vento diminuía, todos chamavam o vento, assobiando com assobio longo (fiiiiiiu fiiiiiiu). Já se aprendia o assovio breve (fiu fiu),  usado para chamar a atenção das meninas, e que, para algumas, era verdadeiro desrespeito, quando o galanteio não lhe agradava.

 

                   Brincar de soltar papagaios tinha outros encantos. Eram bonitas as disputas dos mais experientes, conduzindo os papagaios para cima, para baixo ou para os lados, conforme o ataque do colega. E as linhas protegidas por cerol, - mistura de vidro moído com grude de tapioca, passada na linha -, cortavam as desprotegidas. O corte era a alegria da  molecada, que corria para pegar o papagaio, muitas vezes, não o conseguindo, pois caia do outro lado do rio, perdendo-se no mato.

 

                   Já não se veem crianças soltando papagaios. Os fios de energia elétrica, que enfeiam as ruas das cidades, por toda a parte, tornam o brinquedo um verdadeiro risco, sobretudo se têm linhas de cerol. Quantas já perderam a vida, porque seus papagaios (ou curicas, ou morcegos, ou pipas, ou raias, ou pandorgas) se envolveram com eletricidade. Por isso, a saudade da infância não pode permitir que se estimule a brincadeira.

 

                   Mas, como seria bom se  se tivesse um lugar para soltar papagaios nos ventos gerais de maio!

 

                            Por Carlos Augusto Macedo Couto (Carlito Couto)

02/06/2014 - A COPA DO MUNDO

Escrito por Segunda, 02 Junho 2014 14:03

A Copa do mundo  sempre foi um período de alegria, festas e de grande ufanismo. As músicas dedicadas às conquistas de nosso futebol  mostram isso e proclamam a excelência do brasileiro. Vejam estes exemplos: “Verde, amarelo, cor de anil/ são as cores do Brasil/ Vencemos o mundo inteiro/ o maior no futebol é o brasileiro”, ou “A taça do mundo é nossa/ com o brasileiro não há quem possa”. São canções que habitam o imaginário popular e que, ainda hoje, são cantadas, quando se aproxima o campeonato mundial de futebol.

 

                        A próxima Copa, a iniciar-se no dia 12 de junho, aqui no Brasil, está bem diferente. Não há aquele entusiasmo generalizado, das outras ocasiões, nem as ruas das cidades, as casas e os veículos estão se vestindo de verde e amarelo. Há essas manifestações, mas em menor quantidade. Quais os motivos da mudança de conduta? Arrisco alguns.

 

                        As nossas mais significativas e fortemente celebradas conquistas no futebol, de 1958 e 1970, tiveram em comum a satisfação popular com a estabilidade econômica do país, proporcionada pelo desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek, e o milagre econômico, apesar da ditadura militar. Nem nada se sabia sobre a realização da Copa, a quem cabia o ônus e quem receberá o bônus das vantagens do evento.

 

                        Desta vez, a população sabe das obrigações do Brasil, em relação à FIFA, dona da Copa. A situação em que se encontram nossos principais serviços públicos, - notadamente  educação,  saúde e  mobilidade urbana -, motivou manifestações, em todo o país,  desde junho do ano passado, com reivindicações justas, mostrando o desvio de prioridades do governo, exigindo serviços com “padrão FIFA”. Certamente, os idealizadores da Copa o Brasil não vislumbraram tais reações, por entenderem que o país “ia às mil maravilhas”, com inserção social de grande fatia da população. Ademais, a situação econômica já não é a mesma, - se comparada À do ano da escolha do Brasil para sediar o evento -, havendo diminuição da produção, da oferta de empregos e do crescimento.

 

                        A Lei Geral da Copa (Lei nº 12.663/2012) escancara os deveres do Brasil e os direitos da FIFA. Em primeiro lugar, protege os interesses econômicos e comerciais da entidade mundial do futebol. Proíbe a comercialização de qualquer emblema, símbolo, camisas, bonés, etc. Cabe à FIFA, “com exclusividade, divulgar suas marcas, distribuir, vender, dar publicidade ou realizar propaganda de produtos e serviços, bem como outras atividades promocionais ou de comércio de rua, nos Locais Oficiais de Competição, nas suas imediações e principais vias de acesso”. Nossos camelôs não poderão vender camisas e bandeirinhas, nem churrasquinho de gato, sem sua autorização.

 

              Tem mais. A FIFA é titular de todos os direitos relativos a imagens, sons e outras formas de expressão nos eventos. Os estádios, construídos por mais de 10 (dez) bilhões de reais dos brasileiros, são-lhe entregues para administrá-los durante a copa. O comércio, dentro das arenas, sem restrições a bebidas, é, por ela, autorizado. Aliás, são criados crimes especiais para o período da copa, como expor, divulgar e  vender produtos não autorizados pela FIFA, com pena de até três meses de detenção. O preço dos ingressos é estabelecido pela FIFA, que fica com toda a renda. E estes absurdos: para o acesso ou permanência nos locais oficiais de competição, qualquer pessoa deve estar na posse de ingresso ou de credenciamento emitido pela FIFA (art. 28, da Lei da Copa); e o maior deles: “A União responderá pelos danos que causar, por ação ou omissão, à FIFA, seus representantes legais, empregados ou consultores”. Onde ficam a soberania nacional e o direito de ir e vir das pessoas,  brasileiros ou não?

 

 

                        Sem dúvidas, estas verdades tornaram a próxima Copa do mundo bem diferente. Mesmo assim, como bons brasileiros, devemos dar trégua e curtir a nossa seleção. De fato, competir é importante, mas, o bom, mesmo, é ganhar. Que venha o hexacampeonato. Se perder, todavia, o mundo não acaba, a vida continua.

Texto ecrito por Carlos Augusto Macêdo Couto

25/05/2014 - ESCOLA EM TEMPO INTEGRAL

Escrito por Domingo, 25 Maio 2014 12:35

ESCOLA EM TEMPO INTEGRAL

 

As soluções simplistas empolgam as pessoas otimistas. Os pessimistas acham que as dificuldades da vida decorrem de os caras complicarem seu dia-a-dia. Mesmo assim, em certas épocas, soluções milagrosas aparecem para salvar a humanidade. Lembro-me, - não faz muito tempo -, que se dizia estar a solução dos problemas sociais na organização das comunidades. Em razão disso, todo dia era criada uma associação de moradores, de bairro, de rua, de adjacências. Embora existissem muitos programas oficiais de apoio elas, tais sociedades perderam-se na falta de representatividade e as soluções decantadas não surgiram.

 

Lembro-me, também, do soro caseiro. Toda mãe poderia evitar a desidratação de seu filho, causada por vômitos e diarreia, se lhe aplicasse o soro salvador. E a receita era difundida em todos os lugares: um litro de água fervida ou filtrada, duas colheres de açúcar, outra de sal. Dizia-se que podia ser utilizado por qualquer pessoa e até mesmo por animais. Com o tempo, deixou-se de falar no remédio, pois os laboratórios não se conformavam em perder mercado para os remédios domésticos.

 

 

É verdade que ambos os exemplos tiveram resultados positivos. Certamente, algumas comunidades, sem suas associações, não teriam melhorado sua qualidade de vida e seu nível econômico. Nemse pode negar que o soro caseiro salvou muitas crianças, diminuindo a mortalidade infantil, no que muito avançamos.

 

 

Nos dias atuais, diz-se que a solução para a educação brasileira está na escola de tempo integral. O governo federal anuncia, para o próximo ano, 7 (sete) milhões de alunos em tais escolas. O governo estadual proclama números fabulosos. Da mesma forma, os gestores municipais falam da poção mágica para a educação pública. O assunto foi tema dos programas de governo dos candidatos a prefeito, como será na campanha eleitoral deste ano, para presidente e governadores.

 

 

A adoção do sistema traria avanços para a educação. Só o aumento do período do aluno na escola já faria crescer seu aprendizado. Os países que, há muito, resolveram o analfabetismo e têm eficientes sistemas de ensino, têm na carga horária o principal fator de aprendizagem. Sirvam os exemplos do Japão, com ano letivo de 243 dias, e a Coreia, com 220, ambos com jornada diária de 8 horas. Nosso ano escolar é de 200 dias de 4 horas. É muito pouco. Ademais, em nossa realidade, retirar as crianças da rua, ocupando-as com atividades docentes e esportivas, reduziria o número de menores desocupados ou infratores, pois teriam a assistência que, muitas vezes, as famílias não podem dar.

 

 

A escola em tempo integral, no entanto, não resolverá a questão, se os professores não forem preparados, se as escolas não estiverem aparelhadas para as novas funções, se não existirem bibliotecas e quadras esportivas. Acima de tudo, é preciso que sejam aumentados os dias de aula e adotadas novas metodologias de ensino. Não se esqueça que o melhor sistema educacional do Maranhão, no século passado, foi construído em nossa terra, pelo Prof. Macedo e seus companheiros. O regime era de tempo parcial. A metodologia, todavia, era revolucionária e inovadora.

Por Carlos Augusto Macêdo Couto (Carlito Couto)

18/05/2014 - O RIO ITAPECURU E AS LANCHAS

Escrito por Domingo, 18 Maio 2014 22:10

Ouvi os apitos das lanchas “Itapecuru” e “Grajaú”, que transportavam pessoas e mercadorias entre Colinas e Caxias. E quando começavam a apitar,  lá pela barra do riacho Curimatá, as pessoas desciam para a beira do rio, ali onde, hoje, de beira rio só existe o nome. Uma alegria incontida surgia na face dos adultos e as crianças, como eu, não conseguiam disfarçar a excitação de ver a embarcação aparecer, naquela curva à esquerda, singrando suavemente as águas. Completavam a cena os abraços de quem chegava e as histórias da viagem.

                   Nunca deixaram minhas retinas a cor de madeira da “Itapecuru” e o verde escuro da “Grajaú”. Assim como permanecem em meus ouvidos o apito agudo da primeira e o mais grave da segunda. Povoa minha memória a lembrança de entrar na “Itapecuru”, quase levado no colo por um filho do dono da lancha. A margem do rio repleta de sacos de babaçu e cereais, para carregar os batelões, que subiam o rio puxados pelas lanchas e desciam as águas direcionados por varas, contrasta com a imagem atual, quando, naquele lugar, quase nem ver o rio se pode.   

                   Até a metade do século passado, a maior importância do Rio Itapecuru consistia em ser o caminho de chegada e partida da cidade. E assim era, desde o início do povoamento, pois, aqui, aportaram, pelas águas, os primeiros que se fixaram, ao ser  criado o entreposto comercial para abastecer a região. Quando pararam as lanchas, por muito tempo ainda, se transportaram pessoas e frutas, bananas sobretudo, com o mesmo destino, em pequenas canoas, tocadas a remo. Quantas histórias, até naufrágios e noites de lua cheia, são contadas pelos que estudavam fora.  A abundância de peixe abastecia as mesas.

                   Quando as rodovias passaram a dominar o transporte, o rio de nossa infância começou a ser esquecido. A redução do volume d’água impede a navegação. Sua piscosidade mínima, embora tenhamos milhares de “pescadores” para receber o “defeso”, retirou das mesas o alimento que fornecia. Mesmo assim, hoje, seu valor está aumentado para a economia estadual. Porque mata a sede de  nossos irmãos, de dezenas de cidades e de nossa capital. Por isso, temos a obrigação de salvar nosso rio.

                   Estas lembranças afloraram minha memória, quando li o resultado de enquete realizada por este portal www.tvconsolacao.com.br. Ficou claro que a população está preocupada com a situação de nosso principal curso de água. Perguntada o que deveria ser feito, por nossa comunidade,  para salvar o Itapecuru, respondeu que devem ser retiradas as construções que o invadem (43%), reflorestadas suas margens (36%) e proibir o lançamento de esgoto em seu leito (21%). Lutar por essas medidas deve ser objetivo de todos nós, para que as novas gerações possam usufruir, como nós, das vantagens de ter um rio em sua vida. Deveras, nada fazer pelo Rio Itapecuru é destruir a história de nossa terra e apagar a memória de seus filhos.

                   Você não quer entrar nessa luta?

                            Por Carlos Augusto Macedo Couto (Carlito Couto)

11/05/2014 - BERNARDO, MÁRTIR DE TRÊS PASSOS

Escrito por Domingo, 11 Maio 2014 09:58

meninobernado

BERNARDO, MÁRTIR DE TRÊS PASSOS

 

                   Conta o evangelho de São Mateus (2, 1-18), que os  Reis Magos, quando foram visitar Jesus, chegando em Jerusalém, perguntaram ao rei Herodes onde estava o rei dos judeus, que acabara de nascer. Perturbado com a notícia, reúne os sacerdotes e pergunta-lhes  onde haveria de nascer o Cristo. Disseram-lhe: em Belém. Informando-se sobre a época do nascimento, enviou os Magos a Belém, após pedir-lhes que fosse comunicado, quando o encontrassem, pois também queria adorá-lo.

 

                   Os Reis Magos, por instrução divina, não retornaram a Herodes, que, sentindo-se traído, mandou matar, em Belém e arredores, todos os meninos de dois anos para baixo.  José fugiu  para o Egito, com Maria e Jesus, e o filho de Deus se salvou da matança. Quanto ao número de meninos mortos não se tem notícia histórica. Mas, a Igreja Católica homenageia, no dia 28 de dezembro,  aquelas crianças, chamando-as de Santos Inocentes, que são considerados seus primeiros mártires.

 

                   Foi o que me veio à mente, quando tive conhecimento da morte do menino Bernardo, cujo corpo foi encontrado em cova rasa, num matagal, em Frederico Westphalen, no Rio Grande do Sul. Seu nome deve ser acrescentado aos Santos Inocentes, como um novo mártir, pois, tal qual os meninos de Belém, foi  morto, sem saber o motivo, por quem tinha o dever de cuidar de sua vida e o poder de decidir sobre ela. Sua morte é uma monstruosidade tamanha quanto o massacre dos meninos de Belém, praticada por modernos herodes.

 

                   Só se pode chorar, quando se sabe que, filho de pai afortunado, Bernardo, como um francisco,  andava maltrapilho; ou não tinha dinheiro para o lanche no colégio; ou passava frio por falta de agasalho; ou vestia  vários dias o mesmo uniforme escolar; ou andava com velhos sapatos. Sofreu bem mais que os Santos Inocentes. Chorou pela morte não explicada da mãe, aos 7 anos, mas não se sabe de queixas.  Buscou ajuda nos serviços de proteção à criança, mas o socorro não lhe foi bastante. O medo venceu aqueles que ele indicava para novos pais.

 

                   Como cordeiro levado ao altar, Bernardo foi conduzido de Três Passos para ser sacrificado em outra cidade. Não se tem notícias de desespero, que certamente  dominou a  sua viacrúcis. Talvez também tenha perguntado por que foi abandonado, porém, não foi atendido, e uma injeção letal levou-lhe a vida. Morreu por sua fé nas pessoas.

 

                   Preciso fazer um apelo desesperado ao Papa Francisco para canonizar Bernardo, imediatamente, e incluí-lo entre os Santos Inocentes, como mais um mártir. Não é preciso esperar pelo tempo, vez que a santificação dos papas João Paulo II e João XXIII desafiou a regra. Nem  milagres são necessários, pois  não se conhece os de José de Anchieta. Mas há milagres de Bernardo: achar seu corpo em cova rasa e seus algozes foi o primeiro; ser sua morte divulgada nos meios de comunicação desse país, causando comoção nacional, o segundo. E os milagres estão provados.

      

 

                   Os santos existem para servir de exemplo aos crentes de sua fé. Bernardo será exemplo por não ter se conformado com a vida que lhe foi dada, e por ter buscado proteção. E sobretudo pelo que dizem seus colegas de colégio: ele gostava muito de dar abraços; ele queria tocar o sino da igreja, onde era coroinha; ele era muito alegre; ele era simpático, carismático. E por muito amar o pai, que nunca o amou. Parafraseando seu colega Lucas: levemos conosco sua alegria e o louvemos.

 

                   Papa Francisco, santificai-o já!

 

                   São Bernardo, rogai por nós.

 

Por Carlos Augusto Macedo Couto (Carlito Couto)

 

27/04/2014 - 50 ANOS DO GOLPE DE 1964 (Final)

Escrito por Domingo, 27 Abril 2014 21:30

50 ANOS DO GOLPE DE 1964 (Final)

  

                   No início de 1966, fui “tentar a vida” no Rio de Janeiro, precisando  trabalhar para estudar. Logo que cheguei, levado por meus primos Esperidião e José Agostinho, ambos já falecidos, passei a frequentar o CEM – Centro de Estudantes Maranhenses, no Largo do Machado. Importante, igualmente, foi tomar refeições no Restaurante Calabouço, que fornecia alimentação a estudantes carentes, como se diz agora, a preços mínimos.

  

 

                   Nesses dois ambientes, passei a conhecer a razão do golpe militar, que não era o propagado perigo comunista.  E a entender seus propósitos, sobretudo  em relação à educação. Os estudantes combatiam o Acordo MEC-USAID, do Ministério da Educação (MEC) e a Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID, sigla em inglês). Objetivava a reforma do ensino brasileiro, do primário à universidade, tendo como foco principal a privatização do ensino superior, transformando as universidades públicas em fundações e departamentalizar os cursos, para extinguir a unidade do movimento estudantil.

  

 

                   Em 1967, passei a estudar educação na Faculdade de Filosofia da UFF-Universidade Federal Fluminense. Tão logo entrei,  integrei-me ao movimento estudantil. Aqui, o movimento era liderado, entre outros,  por Ivan Mota Dias, estudante de história, que viria a desaparecer em 1971. Em 1968, passei também no curso de direito, na mesma UFF, onde convivi com Fernando Santa Cruz, desaparecido em  1974. Suas famílias buscam, até hoje, desesperadamente, seus corpos, para enterrá-los.

 

  

                   Como participante do movimento estudantil, na universidade, estive presente nas atividades realizadas no Rio e em Niterói. São memoráveis as manifestações motivadas pela morte do estudante Edson Luís, quando a polícia reprimia o combate ao fechamento do Restaurante Calabouço, em 28.03.1968. A Passeata dos Cem Mil, em 26.06.1968, organizada pelos estudantes, contra a ditadura militar, e que teve o apoio de artistas, intelectuais e da igreja católica. Em 13.10.1968, é a famosa queda de mais de mil estudantes que participavam do XXX Congresso da UNE, em Ibiúna, São Paulo. No mesmo domingo, em Belo Horizonte, participei de encontro das Faculdades de Filosofia, talvez para disfarçar o congresso  da UNE, pois, nesta cidade, fora realizado o XXVIII, em 1966. Talvez por isso, narro esses fatos, pois poderia não estar contando fato algum, se tivesse  integrado a delegação fluminense a Ibiúna.

  

 

                   Em 13.12.1968, foi promulgado o Ato Institucional nº 5, o famigerado AI-5, de triste memória, e começam “os anos de chumbo” da ditadura, com o fechamento do Congresso Nacional, cassação de parlamentares e  suspensão dos direitos civis. Esta fase, que se estendeu até março de 1974, fim do governo Médici,  caracterizou-se pela violenta repressão aos opositores do regime, havendo tortura, desaparecimento e morte de militantes estudantis e pessoas consideradas subversivas. Sem liberdade de imprensa, havia rígida censura aos meios de comunicação e às artes, com pessoas sendo exiladas ou na clandestinidade. Assim viveu a sociedade brasileira até a Lei da Anistia, em 1979, concedida depois de ampla mobilização social.

  

 

                   Desde os tempos de estudante universitário, entendi a importância da participação do cidadão na vida de seu país, o que fiz, inclusive, militando em partido político. Estas dolorosas lembranças,  - aliás, muito pessoais -, me ocorrem, quando a história registra os 50 anos do golpe de 1964, ocorrido em 01.04.2014. Minha convicção é que, sem a ditadura, nossa nação estaria bem melhor. De fato, dos motivos alegados como motivadores do golpe, - a defesa da democracia e o combate à corrupção -, nunca existiram, pois passamos 21 anos sob uma violenta ditadura e desenvolveu-se uma assustadora prática de corrupção, que precisa ser extirpada de nossa vida política e social.  

  

 

                            Por Carlos Augusto Macêdo Couto (Carlito Couto)

21/04/2014 - 50 ANOS DO GOLPE DE 1964(III)

Escrito por Segunda, 21 Abril 2014 09:38

50 ANOS DO GOLPE DE 1964(III)

 

 

                   O segundo semestre de 1965, em Colinas, parecia que transcorreria sem questões políticas de maior relevância, uma vez que aparentava estarem todas as forças  locais satisfeitas com o golpe militar. Esta era a visão para as pessoas que não tinham maior envolvimento político. No entanto, havia verdadeira guerra pelo controle político da cidade, que, desde a derrubada do regime getulista, em 1945, estava sob domínio de Sales Moreira, como era conhecido, em nossa cidade, o então deputado Gonçalo Moreira Lima. Nossa economia caracterizava-se pela pequena produção agrícola e extrativismo, sobretudo do babaçu. Os latifundiários cobravam “renda” pela utilização de suas terras e ainda praticavam o sistema de escambo, trocando os produtos agrícolas por mercadorias diversas, do sal e açúcar ao tecido.

 

 

                   Como é sabido, um dos motivos públicos do golpe de estado de 1964 foi  o combate ao comunismo, para salvar a democracia. Por isso, a maneira mais eficaz de combater os adversários locais era fazê-los inimigos do regime,  tachando-os de “comunistas”. Isto porque havia verdadeira campanha de caça aos comunistas, em nosso país. Certamente por isso, os donos do poder, em nossa  comuna, passaram  a acusar o Padre Macedo, - então a maior liderança da cidade -, de “comunista”. Qual era a alegação adotada, por seus adversários? Haver tentado distribuir terras a camponeses, no projeto da “Colônia Agrícola Bernardo Saião” e estimular a saída dos agricultores dos latifúndios, sugerindo sua mudança para “o lado do rio”, na região do Jatobá e adjacências, terras devolutas, onde não havia latifúndios. 

 

 

                   As eleições marcadas para novembro de 1965 foram mantidas, pelo novo regime, para escolha de governadores e prefeitos. A nível de Maranhão, o poder estadual dividido deu oportunidade à eleição de José Sarney para governador, que teve, também, apoio da “revolução”. Um dado é importante neste pleito, para Colinas, com óbvios reflexos: o vice-governador, Antônio Jorge Dino, era genro de Gonçalo Moreira Lima, que, no município,  restaurou seu poder, que perdera com o apoio do governador Newton Bello à oposição local. O candidato oposicionista a prefeito,  que venceu, com o apoio expresso do Padre Macedo, encheu de esperanças a população local, especialmente a juventude que se formava no Colégio Colinense. No entanto, para desencanto da maioria, essas esperanças não iriam muito longe, havendo um “racha” no grupo que elegeu o prefeito municipal.

 

         Nos anos seguintes, a “revolução” se consolidaria com a extinção dos partidos políticos então existentes, bem como a criação do artificial bipartidarismo, Arena e MBD,  com suas sublegendas. Nas pequenas cidades, até por sobrevivência política, todos queriam ser governo. Daí, as Arena I, Arena II, e até Arena III, sendo “revolucionárias” todas as forças políticas. Estes fatos, contudo, são contemporâneos e posteriores ao ano de 1966, quando eu já residia no Rio de Janeiro. (Continua.)

 

 

Por Carlos Augusto Macedo Couto (Carlito Couto)

13/04/2014 - 50 ANOS DO GOLPE DE 1964( II)

Escrito por Domingo, 13 Abril 2014 16:05

50  ANOS  DO  GOLPE  DE  1964(II)

 

                   Já no início do segundo semestre de 1964, no Seminário da Prainha, começou a surgir insatisfação com o chamado movimento militar. Havia um grupo de seminaristas que se encontrava, às quartas feiras à noite, para discutir literatura, do qual eu fazia parte. Nos debates, comentava-se o absurdo da suspensão das garantias constitucionais, a cassação de mandatos de deputados, pelo disposto no Ato Institucional nº 01. Este instrumento de exceção é de 09 de abril de 1964, publicando-se a primeira lista de cassados no dia seguinte. Além disso, é bom lembrar que alguns do grupo tinham simpatia pela Revolução Cubana de 1959, que era, então, muito atacada pelos “revolucionários” tupiniquins.

 

                   No fim do ano, abandonei  o seminário. Voltei para Colinas. O meu projeto era transferir-me para o Rio de Janeiro, para onde se dirigiam os que pretendiam trabalhar e estudar, pois lá havia uma boa colônia de colinenses e não era difícil conseguir emprego. Entretanto, o Prof. Macedo, ainda padre da cidade, me convidou para dar aulas no Ginásio Colinense. Aceitei o convite. E aproveitei para concluir o curso de professor, na Escola Normal de Colinas.

 

 

                   Em nossa cidade, pouco se comentava sobre o golpe. E quem o fazia, aprovava o movimento. Anos antes do golpe, algumas pessoas liam a revista “Ação Democrática”, sempre de capa verde e amarela, publicação mensal que combatia, ferozmente, o comunismo, e era distribuída gratuitamente. Meu pai Agostinho Couto recebia o periódico. Este registro é importante, porque sua leitura  incutiu em muitas pessoas verdadeiro pavor  do comunismo e dos comunistas.

 

                   Dois fatos ocorridos em 1965 mostram a aprovação do golpe em nossa terra. Castelo Branco fez uma visita à Barragem de Boa Esperança, onde se construía uma hidrelétrica no Rio Parnaíba. Numerosa caravana de Colinas foi receber o presidente. E recordo o entusiasmo dos participantes, ao retornarem.  Alguns parentes voltaram encantados, porque  Juarez Távora, - que passara na então cidade de Picos, em 1925, integrando a Coluna Prestes -,  perguntou por nosso avô Manoel José de Macedo Filho, o Dr. Manduca Macedo, e recordar o discurso que ele proferiu, na Praça Dias Carneiro, em frente à residência do Coronel Macedo, no dia da partida dos “revoltosos”.

 

                   O outro fato relevante ocorreu no “Ciclo de Estudos”, que era promovido, anualmente, no Ginásio Colinense. Salvo engano, o tema dos debates era a Democracia. Meu grupo fez um trabalho sobre o sistema parlamentarista de governo, cuja defesa foi por mim sustentada. Desde então, em minhas convicções políticas, passei a acreditar ser o melhor para o regime democrático. Durante a semana de estudos, foi instalado o Banco Nacional de Habitação - BNH. E os participantes aprovaram, por unanimidade, e com vibrante entusiasmo, moção de louvor, que foi endereçada ao Presidente da República.

 

                   O ano de 1965 foi de grande movimentação política em Colinas. A partir da fundação do ginásio pelo Padre Macedo, um sentimento de renovação e mudança era encontrado em todos os locais da cidade e, especialmente, entre a juventude, que acreditava em vida melhor, a partir de seus estudos, agora possíveis. (Continua.)

                                               Por Carlos Augusto Macêdo Couto (Carlito Couto)

06/04/2014 - 50 ANOS DO GOLPE DE 1964 (I)

Escrito por Domingo, 06 Abril 2014 22:23

50  ANOS  DO  GOLPE  DE  1964(I)

 

                   Embora alguns historiadores afirmem ter sido em 1º de abril de 1964 o golpe que derrubou João Goulart, 31 de março é a data comemorativa do fato político-militar, chamado pelos vencedores de “Revolução de 31 de março”. Nesses últimos dias, em razão do cinquentenário do movimento, os órgãos da imprensa têm dado grande cobertura ao fato. São diárias as manifestações de políticos e militares remanescentes de então, opinando sobre suas causas e efeitos. Da mesma forma, pessoas que tiveram mandatos cassados, ou que foram punidas, torturadas e exiladas, têm  apresentado suas versões. Ao mesmo tempo, artigos são escritos por cientistas políticos e reportagens são publicadas para relembrar esses acontecimentos, além de apresentarem análises e avaliarem suas consequências econômicas e políticas para o país. Uma verdadeira revisitação dos fatos.

 

 

                   No dia do golpe, eu era seminarista, em Fortaleza/CE. Estudava o sexto ano do seminário menor, no Seminário da Prainha. Antes, por quatro anos, estudara no Seminário Santo Antônio, em São Luís/MA. Reclusos como vivíamos os seminaristas, soube do ocorrido por informação do padre prefeito, no salão de estudos, pois aquele 1º de abril de 1964 era uma quarta feira, dia da semana totalmente dedicado aos estudos, em que não havia aulas. No intervalo das sessões de estudo, os comentários eram favoráveis ao movimento. Confesso ter  acreditado que, realmente, os militares tinham afastado o perigo de o  Brasil tornar-se um país comunista, o que era temido, como nos ensinavam no seminário.

 

                   Sobre o dito “perigo comunista”, muita doutrinação nos era dada. Ainda em São Luís, lembro-me sermos aconselhados a ler um livro intitulado, salvo engano, “A Igreja por trás da Cortina de Ferro”. Nele, eram relatados fatos de perseguição à Igreja Católica na União Soviética  e seus satélites. Recordo-me, também, de um padre, expulso da China de Mao Tsé-Tung, que lá trabalhava na época da revolução comunista, e que distribuía um livro, contando suas experiências. Fazia verdadeira cruzada contra o regime comunista. Todos eles ressaltavam o perigo que ameaçava a Igreja. Portanto, era nosso dever,  de católicos e futuros padres,  combatê-lo.  Ainda me vêm à mente os filmes e palestras, promovidos pelo consulado americano, em São Luís, informando os seminaristas sobre as excelências do “american way of life”.  

 

 

                   Em 1964, vivíamos a chamada “guerra fria”, em que Estados Unidos e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) se ameaçavam e se temiam, sob o fantasma de uma guerra nuclear. Isto atemorizava a humanidade, sob a lembrança das bombas atômicas lançadas no Japão, em 1945. O movimento militar ocorreu no momento mais quente dessa guerra, após a “crise dos mísseis”, em que os Estados Unidos basearam mísseis na Turquia e, em represália, a URSS instalou os seus em Cuba.

 

 

                   Era nesse ambiente, sobressaltados, que se vivia. Depois do golpe, a eleição do General Humberto de Alencar Castelo Branco, um cearense, em abril de 1964, para substituir o deposto presidente João Goulart, encheu de orgulho meus colegas das terras alencarinas. Todos apoiavam o novo governo. No entanto, já no início do segundo semestre, a insatisfação, em nosso meio, começou a surgir. (Continua.)

 

 

                                               Por Carlos Augusto Macedo Couto (Carlito Couto)

30/03/2014 - ONDE ESTÃO NOSSOS LÍDERES?

Escrito por Domingo, 30 Março 2014 19:24

ONDE  ESTÃO  NOSSOS  LÍDERES?

 

 

                   A cidade antiga, especialmente a greco-romana, tem sua origem remota na família. A religião foi o princípio constitutivo de família, tendo cada uma seu próprio deus. Famílias reuniram-se em fratias. As fratrias, em tribos. Quando diversas tribos se agruparam, surgiu a cidade. Mas, é preciso lembrar que as tribos não deixaram de ter seu próprio deus, embora a cidade tivesse uma religião comum.

  

 

                   Era na participação no culto da cidade que se reconhecia o cidadão. Isto para que servisse de exemplo aos jovens. Fustel de Coulanges, historiador francês, em livro publicado por volta de 1865, intitulado “A Cidade Antiga”, mostra que, “em Esparta, aquele que não comparecia ao repasto público, mesmo que não fosse por sua culpa, cessava de imediato de ser considerado cidadão. Cada cidade exigia que todos os seus membros participassem das festas de seu culto. Em Roma, era mister ter estado presente à cerimônia santa da lustração para usufruir dos direitos políticos” (Edipro – 2ª ed./1999, p. 165).

 

 

                   As cidades, na formação de nosso país, nasceram em torno das igrejas, em razão de a religião católica ser o credo oficial do estado português. Ir à missa dominical, durante séculos, foi obrigação dos cidadãos. Na saída dos templos, as famílias se encontravam, e os jovens aprendiam a trilhar o mesmo caminho seguido pela sociedade.

  

 

                   Nos novos tempos, a religião deixou de ser o ponto de união das pessoas. Até porque são muitas e divergentes em doutrinas. As cidades passaram a ter outros meios de reunir seus cidadãos. Clubes sociais, esportivos ou de serviço, corporações de ofício, partidos políticos, festejos, inclusive religiosos, datas cívicas e manifestações culturais da comunidade, entre outros, passaram a ser  local e momento de encontro das pessoas. Servindo, ainda agora, o exemplo dos líderes, como instrumento de formação das novas gerações.

 

 

                   Em nossa cidade, infelizmente, as gerações  não se encontram, nem dialogam. Os líderes políticos, empresariais, religiosos, sindicais, educacionais, comunitários, em sua quase totalidade, encastelam-se em sua importância, não frequentando os locais onde poderiam encontrar os jovens. Eventos, - como festejo de dezembro, natal,  réveillon, carnaval, festas juninas, desfiles cívicos, aniversário da cidade, programação de clubes, por exemplo -, não são prestigiados por nossas lideranças. Depois, queixam-se,  porque as novas gerações não se interessam pela cidade, vivendo num mundo distante, nem sempre regido pelos princípios seguidos por seus pais. Se como dantes, a ausência aos lugares públicos suspendesse os direitos políticos dos cidadãos, talvez  outra fosse a realidade.

 

 

                   É verdade que o mundo, hoje, é uma metamorfose ambulante, como disse o poeta. Entretanto, não dispensa o diálogo entre gerações, que está faltando em nossa cidade, por ausência voluntária de nossas lideranças. Certamente que sua presença na sociedade diminuirá o espaço que separa as gerações e seus exemplos construirão uma cidade melhor.

 

 

                                      Por Carlos Augusto Macedo Couto (Carlito Couto)

16/03/2014 - FIM DO ESTELIONATO ELEITORAL (II)

Escrito por Domingo, 16 Março 2014 20:46

FIM DO ESTELIONATO ELEITORAL (II)

                   Encerrei o artigo da semana anterior, afirmando que a Lei nº 12.891/13 poderá acabar com a fraude eleitoral, consistente em candidato inelegível renunciar, à véspera da eleição, indicar outro candidato, permanecendo na urna eletrônica o nome e a foto do renunciante, valendo o voto para seu substituto.

                   A nova lei modificou o § 3º, do art. 13, da Lei Geral das Eleições (Lei nº 9.504/97). O artigo permite que o partido político substitua o candidato que for considerado inelegível, renunciar ou falecer, após o prazo de registro. Mas, a nova norma limita o prazo para substituição, o que não ocorria com a redação anterior. Passou a ter a seguinte redação: “Art. 13. § 3º. Tanto nas eleições majoritárias como nas proporcionais, a substituição só se efetivará se o novo pedido for apresentado até 20 (vinte) dias antes do pleito, exceto em caso de falecimento de candidato, quando a substituição poderá ser efetivada após esse prazo”. Em outras palavras, diz atual redação da lei que, em caso de renúncia, indeferimento ou cancelamento de registro do candidato, a substituição só poderá ocorrer até 20 (vinte) dias antes da eleição.

                   A nova regra é muito bem vinda. A principal razão é porque acaba com o abuso de direito do candidato inelegível, que fazia a campanha e, à undécima hora, era substituído. Entretanto, além disso, permite que os eleitores conheçam o novo candidato, pois ainda não estará encerrada a campanha eleitoral, que se finda três dias antes do pleito. Ademais, desencoraja candidatos “fichas sujas”, mesmo com grande popularidade, a se candidatar, uma vez que, necessariamente, não mais lhes será concedida oportunidade de disputar eleição. Por fim, o pequeno tempo para o término da campanha eleitoral será óbice intransponível para candidatos, que, sem qualquer expressão política, mas fiéis aos substituídos,  sejam aceitos pelos eleitores. Só por desconhecer o nome e a fotografia, os eleitores elegiam esses candidatos sem nome e sem imagem!

                   Para maior legitimidade das próximas eleições, como quer a Constituição da República, em seu art. 14, § 10, - retirando do pleito o abuso do poder político ou o uso indevido da máquina administrativa -, a nova norma será aplicada já na próxima eleição. Sancionada em dezembro passado, menos de um ano antes das eleições gerais, parece atingir o princípio de que a lei modificadora do processo eleitoral só se aplica à eleição que ocorrer até um ano após sua vigência (CR, art. 16). O Tribunal Superior Eleitoral, contudo, inseriu-a na Resolução nº 23.405, que dispõe sobre a escolha e o registro de candidatos nas eleições de 2014 (art. 60, § 2º). É um  grande avanço da legislação eleitoral.

                   Mais deve ser feito, ainda. A possibilidade de estelionato eleitoral permanece, em caso de morte de candidato, após 20 (vinte) dias antes do pleito. Nesse caso, a legislação deve ser modificada, quando a eleição for majoritária. E a solução, que nos parece sensata, é adiar o dia da votação. Se a morte ocorrer, antes do primeiro turno, transferir o pleito para a data do segundo turno. Se após o primeiro turno, transferi-lo para o terceiro domingo de dezembro. Em busca de legitimidade e lisura da eleição, devemos todos lutar por essa nova mudança. Aí, sim, o estelionato eleitoral estará morto e enterrado.    

Por Carlos Augusto Macêdo Couto

09/03/2014 - FIM DO ESTELIONATO ELEITORAL (I)

Escrito por Domingo, 09 Março 2014 18:58

FIM DO ESTELIONATO ELEITORAL (I)

                   A atual Lei das Eleições (Lei  9.504/97, art. 13), seguindo disposição do Código Eleitoral de 1965 (Lei  nº 4.737/65, art. 101, § 2º), permitia a substituição do candidato, até no dia do pleito, em caso de morte, renúncia ou inelegibilidade, nas eleições para a chefia do poder executivo (prefeito, governador e presidente). Isto ocorrendo, tanto a cédula de votação, então utilizada, mantinha o nome do candidato substituído, bem como a urna eletrônica atual permanecia com seu nome e fotografia.

                   Existia um verdadeiro estelionato eleitoral. O eleitor era mantido em erro, mediante artifício, pois votava em quem já não era candidato, mas constava da cédula eleitoral ou da urna eletrônica, elegendo outra  pessoa, da confiança do político substituído. E o estelionato ficava caracterizado, especialmente em caso de inelegibilidade. O candidato substituído obtinha a vantagem ilícita de ser o gestor público, sem haver sido eleito.

                   Colinas já passou por este vexame, não faz muito tempo. Na eleição de 2008, o então prefeito municipal, Sr. José Henrique Brandão, mesmo inelegível, candidatou-se à reeleição. Com artifícios jurídicos, manteve sua candidatura até a véspera do pleito. Então, sabendo que sua inelegibilidade seria declarada pelo Tribunal Superior Eleitoral, renunciou à candidatura e indicou a Sra. Valmira Miranda para substituí-lo. Seu nome e fotografia permaneceram na urna eletrônica.

                   O candidato opositor não pode divulgar a renúncia e a substituição, por absoluta impossibilidade física. Com efeito, não tinha meios de fazer a notícia chegar a todos os eleitores do município, pois o prazo da propaganda eleitoral já havia se esgotado. Ademais, teve seus veículos apreendidos pela Justiça Eleitoral, na véspera do dia da votação.  A história é recente. Todos devem recordar-se dos fatos.

                   Supondo que votavam no então prefeito, cujos nome e fotografia encontravam-se na urna eletrônica, os eleitores escolheram Sra. Valmira Miranda prefeita municipal, para o período 2009/2012. E o que aconteceu? O candidato substituído tornou-se prefeito de fato, sem qualquer responsabilidade pelos atos da prefeita ventríloqua, atrasando em quatro anos o desenvolvimento da comuna. Veja no que deu: ponte que não resistiu às águas do primeiro inverno, prédios escolares caindo, quase literalmente, nas cabeças das crianças, e obras inacabadas, como a Praça da Alegria e três creches municipais.

                   A legislação eleitoral, para desespero de muitos, compactuava com esses estelionatos. Como Colinas, muitas outras comunidades, do Maranhão e deste imenso Brasil, sofreram enormes prejuízos, em razão dessa permissividade. Felizmente, a mudança ocorrida na legislação especializada poderá acabar com essa fraude eleitoral. Trata-se da  Lei nº 12.891, sancionada em 11.12.2013, conhecida como lei da minirreforma eleitoral, sobre a qual conversaremos na próxima semana. 

Por Carlos Augusto Macêdo Couto (Carlito Couto)

24/02/2014 - CARNAVALINAS

Escrito por Segunda, 24 Fevereiro 2014 14:11

CARNAVALINAS

 

Este portal realizou interessante enquete, nos últimos trinta dias, para saber a opinião de seus internautas sobre o carnaval de Colinas. A pergunta foi a seguinte: “Como você gostaria que fosse o próximo carnaval de Colinas?” As opções para resposta, as seguintes: “Com blocos de axé e arrastão; com blocos tradicionais e bailes; com ambas as manifestações”.

 

O resultado, embora não seja surpreendente, demonstrou que 73,50% dos que deram sua opinião optaram por um carnaval com ambas as manifestações culturais; coincidentemente, 13,25 %, apenas com blocos de axé e arrastão; e 13,25%, apenas com blocos tradicionais e bailes. É um resultado expressivo, em que as pessoas querem o novo, sem desprezar as manifestações culturais locais. Talvez a beleza do carnaval do ano passado, com ambas as práticas, mas com destaque para o colorido das fantasias e a animação dos diversos blocos, tenha motivado esse posicionamento.

 

A programação oficial anunciada pela secretaria municipal de cultura, para o carnaval deste ano, não ouviu a voz das ruas. É que apenas os blocos de axé, com seus arrastões, foram contemplados pelos promotores das festas momescas. As bandas contratadas estão mais para de forró (nada contra essa música, que admiramos, fique claro!) do que para carnaval. Onde estão os saxofones, trombones, trompetes e baterias que sempre animaram nosso carnaval? Para onde foram os arlequins, pierrôs, fofões, e as cores das fantasias? É uma pena que estejam ausentes deste carnaval!

 

Ademais, a programação falha por não conter qualquer atividade para as crianças. Se estas não forem motivadas a integrar o carnaval, certamente, quando jovens e adultos, não terão lembranças a motivar sua participação nesta festa. Haverá o risco de perdermos um símbolo da alegria colinense. Como tudo na vida, sem a integração das crianças na comunidade, suas manifestações culturais e artísticas tendem a desaparecer. E não podemos cometer esse pecado.

 

No entanto, nem tudo está perdido. O Colinas Clube, que neste ano comemorará seu cinqüentenário, estará promovendo o que chama de Carnaval do Futuro, orientado apenas para as crianças. De sábado a terça feira, realizará vesperais para as crianças, com concursos infantis e prêmios, para motivá-las à participação. São as chamadas carnavalinas, o carnaval das crianças de Colinas. Faça seu filho participar.

 

É preciso que se mantenham e restaurem as manifestações culturais de nossa terra. O carnaval colinense, com suas próprias características, é uma delas. As carnavalinas são um dos caminhos a manter vivo o interesse por esta cultura. Não podemos esquecer que não há povo sem história.

 

Por Carlos Augusto Macedo Couto

18/02/2014 - RESPEITO, DEPUTADO!

Escrito por Terça, 18 Fevereiro 2014 15:03

RESPEITO, DEPUTADO!

                   É muito fácil ofender as pessoas, atingindo-lhes a honra ou a auto-estima. Basta falar demais. Isto aconteceu, semana passada, com um deputado federal, em relação ao Maranhão e aos maranhenses.

                   Jair Bolsonaro é deputado federal, pelo estado do Rio de Janeiro. No verbete com seu nome da Wikipédia (enciclopédia livre da Internet), lê-se, sobre seu perfil, o seguinte: “é um militar da reserva e político brasileiro. De orientação política de direita, cumpre sua sexta legislatura na Câmara dos Deputados do Brasil, eleito pelo Partido Progressista.” (...)

“Ganhou notoriedade nacional após dar declarações sobre questões polêmicas, como homofobia, preconceito racial, sexismo, cotas raciais, e defesa da tortura e do regime militar no Brasil, sendo classificado por alguns jornalistas e órgãos de imprensa como representante da extrema-direita brasileira.”

                   Agora, seu partido quer fazê-lo presidente da Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Câmara. Com a notícia, houve imediato protesto de pessoas ligadas aos direitos humanos. Aliás, o mesmo aconteceu, no ano passado, quando o Deputado Marco Feliciano (PSC), de São Paulo, pastor evangélico, assumiu o mesmo cargo, pela explícita homofobia que pregava.

                   Pois bem. Numa manifestação de protesto contra  indicação de Bolsonaro  para a CDH, em Brasília, reagindo aos jovens, cometeu o seguinte despautério: “A única coisa boa que o Maranhão  tem é o presídio de Pedrinhas”. E, talvez querendo desfazer a mancada, corrigiu: “É só você não estuprar, não seqüestrar, não praticar latrocínio e você não vai pra lá, porra.”

                   Além de agressivo e pornofônico, o deputado não merece nosso respeito, pelas posições antidemocráticas que defende e pela provocação gratuita dirigida a nosso Estado e ao nosso povo. Não sou dado a patriotadas, nem aceito o “ame-o ou deixe-o”. Mas tenho orgulho de ter nascido à margem do Itapecuru. Não posso ficar calado, diante de tamanho disparate.

                   Não aceito a situação em que se encontram as pessoas, no presídio de Pedrinhas, onde há violação dos direitos humanos, como já me posicionei, neste espaço (Cena Brasileira, 12.02.2014). Mas repugna-me saber que alguém, que nada sabe sobre direitos humanos, diga que o presídio é a única coisa boa do Maranhão.

                   Os maranhenses, em sua esmagadora maioria, não apóiam  ditadura, não defendem  tortura, opõem-se à homofobia e ao racismo, apóiam as quotas sociais. Somos bem diferentes do deputado. Aliás, estamos em campos opostos. Nem é preciso registrar sua ignorância, quanto ao que o Maranhão tem de cultura, de beleza, de inteligência, de história e de civismo.

                   Exigimos respeito, deputado!

                                                       

Por Carlos Augusto Macedo Couto                   

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