Quinta, 23 Novembro 2017

Ponto de Vista (31)

19/06/2015 - Estado antibiótico

Escrito por Sexta, 19 Junho 2015 20:10

                                              Estado antibiótico
 

O desenvolvimento do primeiro antibiótico em escala industrial, em 1940, coincide, historicamente, com uma reação teórica veemente contra o Estado intervencionista e de bem estar social. Apenas quatro anos depois de Sir Howard Fleorey e Ernst Chain retomarem as pesquisas de Fleming e desenvolverem o uso terapêutico da penicilina em larga escala, Friedrich Hayek escreveu O Caminho da Servidão. O livro de Hayek contrapunha-se ao estado de bem-estar social, defendido pela social democracia moderada inglesa. Segundo ele, o estado intervencionista traria “o mesmo desastre nazista – uma servidão moderna”.
 

Apesar de dirigidas ao Partido Trabalhista inglês, nas eleições de 1944, as críticas de Hayek ganhariam grande impulso com a crise do modelo econômico do pós-guerra, em 1973. Baseada nas teses neoliberais de Hayek, a solução para aquela crise do capitalismo era simples: manter um estado forte o suficiente para controlar sindicatos (gênese do estado repressor de miseráveis criminosos) e anêmico em gastos sociais e intervenções econômicas. Garantidor sim da estabilidade monetária, mas à custa de forte disciplina orçamentária pública.
 

Desde a década de 70, este modelo neoliberal veio se tornando hegemônico no mundo. Mesmo governos de “esquerda” têm dificuldade de resistir ao tom inexorável de seus ditames. Seus mecanismos ideológicos conseguiram disfarçar em “fim da história” esse momento histórico do capitalismo moderno. Assim, enquadraram o tempo histórico no obsoletismo tecnológico. Nivelaram decisões governamentais a problemas de gestão; subjugaram projetos políticos a despachos de ministros da economia. Por outro lado, o novo crescimento do mercado, representado pela flexibilidade das tecnologias de produção e a expansão dos mercados financeiros empurram cada vez mais o homem comum para um abismo de exclusão e de psicopatologias endêmicas.
 

 Dessa forma, a liberdade de mercado está longe de significar a liberdade desses homens.  Pelo contrário, os defensores desse tipo de liberdade empenham-se em alardear o encarceramento de meninos como solução para a violenta crise social. Com medida assim, pretende-se combater ameaças que rondam shoppings, parques e condomínios, órgãos vitais de afirmação da exclusão social, templos da função simbólica diferencial do consumo.
 

As tendências destrutivas de uma competitividade insaturável, dentre outras moléstias, criam a exclusão daqueles que não atendem às expectativas do mercado. Para lidar com essa população de excluídos e corrompidos no jogo do consumo, soluções letais são cada vez mais utilizadas, como mostram os assustadores e crescentes índices de mortalidade em populações pobres no Brasil.
 

Excluir desse debate a responsabilidade do modelo neoliberal vigente equivale a inverter o efeito em causa. Fleming transformou o mofo residual de fungos presentes numa colônia de bactérias em penicilina. O neoliberalismo tenta fazer o inverso, transformar suas vítimas em algozes. Como solução para a violenta crise social, crianças e adolescentes são tratadas como microrganismos infecciosos que precisam ser eliminados do organismo social e entregues a um sistema prisional mortífero.
 

Como um excesso de antibiótico, a redução da maioridade penal causará mais doenças do que cura. Equivale a transformar o mofo residual do Estado de bem-estar-social na afirmação definitiva do Estado antibiótico. 

Por Jarbas Couto Lima

O modelo de jornalismo da Globo está em transformação
 

Foi José Bonifácio de Oliveira, o Boni, tido como o grande midas da televisão brasileira quem criou a fórmula do “horário nobre” da TV Globo. Duas novelas com um jornal no meio foi a fórmula do sucesso nos lares do país. A primeira novela das 19h às 20h, com temáticas mais leves, geralmente as chamadas novelas de época. Em seguida o Jornal Nacional, noticiário com temas nacionais e internacionais, prendia o público masculino adulto. Logo após, a novela das oito - que nunca começou no horário e agora começa depois das nove da noite -, com enredo mais complexo (crimes, traições).
 

A fórmula é repetida até hoje. Claro, com as adaptações do horário sob orientação do Ibope. E tudo indica que deve durar por muito mais tempo, até que a audiência da emissora no horário esteja seriamente comprometida. Se isso acontecer até nossa rotina diária poderá mudar. Quem nunca marcou um compromisso pra “depois do Jornal Nacional”?
 

A prova que essa mudança não está próxima são as atuais adaptações no formato dos programas. Para não mexer na fórmula de sucesso, a emissora vai tentando se manter no topo “modernizando” a programação. O grande exemplo é o que hoje acontece no Jornal Nacional, o mais conservador modelo de jornalismo ainda vigente no país.
 

O tradicional “jornalismo de bancada”, modelo americano copiado por todos, vem sendo alterado bastante em 2015. Mas as mudanças iniciaram pra valer com o surgimento da figura do âncora, com jornalistas (e não apresentadores) na bancada, com o consagrado William Bonner à frente. Antes os apresentadores clássicos, como Sergio Chapelin e Cid Moreira, narravam as notícias através da imposição da voz. Hoje não é preciso ter voz grave e bonita, mas ter capacidade de comentar as notícias.
 

Agora esse modelo de bancada também parece ir perdendo terreno. Já se pode ver os jornalistas de pé, caminhando até o telão para conversar virtualmente com os colegas repórteres ou com a garota do tempo (que agora é negra, ressalte-se). É uma mudança importante ainda que se leve em conta que nos outros dois jornais da emissora isso já acontecia. O Bom Dia Brasil e o Jornal da Globo já usam esse modelo há anos. Mas estamos tratando do Jornal Nacional, o modelo de sucesso, como já dissemos antes.
 

Toda essa mudança no formato quer deixar o noticiário menos formal, menos conservador. Outro dia houve uma conversa entre os jornalistas no estúdio e a garota do tempo, ao vivo, dentro do jornal. O assunto: William Bonner perguntava se a colega Maria Julia Coutinho gostava de ser chamada da Maju. Um bate-papo informal, descontraído, meio desinteressado num primeiro momento. Mas que deixou clara a nova tendência: Bonner disse que nas redes sociais era assim que a Maria Julia era chamada pelos seguidores e que, por conta disso, fazia a pergunta.
 

Sinal dos tempos: o Jornal Nacional começa a se pautar pelo que que está em discussão nas redes sociais?

A Violência e a Deturpação do Jornalismo

 

            Estou escrevendo um ensaio acadêmico que trata do conceito de jornalismo e da sua deturpação. Como o assunto é contemporâneo, vou resumi-lo nessas nossas páginas de debate.

            Temos assistido nos últimos anos ao crescimento da violência, principalmente nos maiores centros urbanos. Isso é de reconhecimento amplo e o Brasil é um dos países que lideram os índices de violência. Isso tem determinado um sem número de avaliações e sugestões para a resolução do problema. Uma delas é a ingênua impressão de que a penalização, como se adultos fossem, de adolescentes a partir dos 16 anos resolveria a questão.

            Há também a exploração midiática sobre o tema a gosto do freguês. O freguês, entretanto, não é a população ou os consumidores de veículos de comunicação, seja de papel, rádio, TV ou internet, mas os financiadores desses veículos. Assiste-se a uma exploração dos números e casos de violência a toda hora e em todo lugar. Existem jornais especializados e vários programas de TV nos quais a violência – de qualquer sorte – é a estrela.

            Conceitualmente, e de forma elementar, o jornalismo é uma forma de disseminação de informações para a comunidade a partir de pessoas e veículos que recebem uma procuração tácita dos consumidores para que sejam seus olhos e ouvidos a distância, já que não podem estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Nós acreditamos que o que é publicado seja verdade, pois delegamos aos jornalistas (e aos veículos) o papel de nossos representantes.

            Sabe-se também que boa parte dos veículos de comunicação (a chamada mídia) usa as informações e o jornalismo como uma forma de imposição do “consenso”, da sua visão da verdade. Publica-se o que o dono da empresa quer ou o que os seus financiadores determinam.  Isso na verdade seria um falso-jornalismo, é propaganda travestida de notícia.

            Pois bem. Juntando violência e divulgação de dados no Maranhão, percebemos que o jornalismo hora é visto como disseminador de informações para que a população construa o seu juízo de valor, hora é apenas um impositor propagandista de ideias, para formatar o tal consenso público, para forjar um grupo acrítico de adesistas.

            O mais grave é que os veículos se travestem de informadores ou impositores de acordo com a maré.

            Os veículos de comunicação, e seus jornalistas de blogs, que passaram anos maquiando/deturpando os números da violência, relativizando dados, dando voz somente a quem dirigia as políticas da área (imposição do consenso), hoje se apresentam como divulgadores ferrenhos de dados, como informadores da população, capazes de dar vez e voz às vítimas para demonstrar a gravidade da situação. Claro que não é preciso dizer que o interesse dos financiadores dos veículos, e a sua cor partidária, determinam a posição.

            Por outro lado, veículos que disseminavam informações, que expunham os dados, que pareciam esperar o fim de semana para relatar os números da violência crescente, as rebeliões, que tinham até uma espécie de contabilizador de casos (quantas mortes por dia, quantos assaltos por mês etc). Hoje, como estão sendo financiados pelos atuais detentores do poder, seja político, seja econômico, não expõem mais com a mesma ênfase os números e dão, quase sempre, primeiro a voz para a explicação e depois para os fatos, deturpando a verdade.

            Claro que a postura agrada às empresas, aos seus cofres e aos financiadores da propaganda, mas perde o jornalismo, perde a livre disseminação de informações e perde a população que, com um mínimo de senso crítico, percebe que no lugar de cidadãos em busca de informações são tratados como meros dados estatísticos. Apenas um número para a próxima pesquisa de opinião pública.

 

            

Carlos Agostinho Couto

Jornalista, doutor em Políticas Públicas e professor do

Departamento de Comunicação Social da UFMA

26/05/2015 - Festa do Divino: uma utopia

Escrito por Terça, 26 Maio 2015 14:17

                                              Festa do Divino: uma utopia
 

A Festa do Divino Espírito Santo, periódica nos meses de maio, ainda é uma tradição viva do Brasil. No Maranhão, manifesta-se singular no sincretismo do Tambor de Mina. Na beleza e na história da povoação de Alcântara descobriu seu palco principal.
 

Parte do simbolismo presente na festa - a pomba branca, a coroa e a distribuição de esmolas - remonta a suas origens lusitanas, no século XIV. Em 1320, durante o período do culto de Pentecostes, D. Isabel de Aragão, rainha de Portugal prometera ao Divino Espírito Santo peregrinar pelo mundo com uma réplica da coroa e sobre esta uma pomba, alegoria do Divino Espírito Santo. Arrecadaria, assim, donativos em benefício dos pobres, caso o rei D. Dinis se reconciliasse com seu filho legítimo, D. Afonso, herdeiro do trono.
 

Há, porém, outra versão dessas origens, mais simpática e que não exclui a anterior. Encontrei-a no livro “O Povo Brasileiro” de Darcy Ribeiro, esse extraordinário pensador do Brasil. Essa versão situa-se numa doutrina herética criada por Infante D. Henrique, príncipe português do século XV, e consiste, em resumo, no seguinte. Segundo a crença de Dom Henrique, primeiro, teria havido um tempo do Pai, o Deus narrado no Antigo Testamento. Depois, um tempo do meio, tempo do Filho, de que fala o Novo Testamento. Então, teria chegado o tempo do Espírito Santo. O tempo de se construir o paraíso na terra, como um projeto utópico, de um mundo governado pela infância. Um tempo de inocente beleza, de solidariedade e de liberdade que caberia aos homens construí-lo.
 

O filósofo e poeta português Agostinho da Silva, estudioso das origens da festa em Portugal - da qual, aliás, sua filosofia deriva –, descreveu os pontos de representação desta utopia em três atos da Festa: primeiro, nas pequenas comunidades, escolhe-se um menino que é levado à igreja para ser coroado imperador do mundo, conforme a crença de que, no tempo do Espírito Santo, o mundo seria governado por um menino. Em seguida, é ofertado um banquete gratuito a todos da comunidade. Por último, o menino imperador vai com sua comitiva à prisão do lugar e liberta todos os presos. Simbolizavam-se, com esses três atos, as principais teses presentes na utopia do Tempo do Espírito Santo. A entronização do menino como guia do mundo simboliza uma vida de contentamento e beleza; o direito de todos à alimentação gratuita, um tempo de fartura, solidariedade e igualdade social; e a libertação dos presos, um tempo justiça e compreensão, o fim do encarceramento.
 

A pressão eclesiástica sobre o culto do Espírito Santo determinou a perda de vitalidade da festa em Portugal, já em meados do século XVI. O culto só seria revitalizado nas colônias, como de fato ocorreu no Brasil. Talvez pelo caráter libertário da festa. Cuja simbologia utópica teria seduzido as populações desterradas e violentamente conduzidas à escravidão no Brasil. Daí sua herança cultural como manifestação sincrética nas Casas de Mina, como bem as descreve o emérito professor Sérgio Ferreti.
 

Agostinho da Silva construiu suas teses filosóficas baseadas na utopia da Festa do Divino. Numa delas afirma que a primeira coisa a se notar no ritual é seu caráter laico, relativamente apartado do culto de Pentecostes. Não é simplesmente a comemoração de uma data, mas a proposta de construção de um futuro. Uma utopia que cumpre aos homens construir hoje. Um tempo de garantia de infância digna.  Para permitir às crianças cumprirem a tarefa inarredável de dirigentes do mundo no futuro. Um mundo de solidariedade e compartilhamento das riquezas produzidas. Uma humanidade capaz de desenvolver sua capacidade de entendimento, em detrimento da punição, do encarceramento e da violência como solução de conflitos.
 

 Quando você for à festa do Divino Espírito Santo, relembre o sonho futurista do Infante Dom Henrique, do qual somos herdeiros. Não aquele futurismo da base de lançamento aeroespacial, pesadelo das populações afrodescendentes. Mas, uma utopia que nos cabe cumprir: futuro pros meninos, solidariedade farta, entendimento como caminho da liberdade.

 

 

                               O ACESSO À INTERNET ESTÁ EM SUAS MÃOS

 

Você, que agora lê esse texto, provavelmente está em casa ou no trabalho em frente a um computador de mesa (ou desktop). Acertei? Pois saiba que isso tende a mudar ligeiramente. De acordo com os últimos dados, a tendência mundial é que o acesso à internet seja feito cada vez mais por dispositivos móveis. Ou mobile, pra ser mais engajado. E o Brasil não fica atrás nessa tendência.
 

De acordo com os dados do Relatório Digital 2015 da agência de marketing social We Are Social, a tendência de crescimento da conexão mobile cresceu 15% em nosso país, superando o crescimento do número de usuários ativos de internet, que tende a ser de apenas 10% maior. Cálculo simples: em pouco tempo haverá mais usuários mobile que por conexões fixas.
 

No ano passado, a diferença ainda era grande, mas já apresentava forte tendência de queda. Enquanto 77% dos acessos à internet no país se davam por desktops, os acessos mobiles eram apenas de 20%. Mas o primeiro tipo de conexão já apresentava queda de 12%, enquanto o segundo cresceu 109%.
 

Outro dado que confirma isso: somos hoje aproximadamente 204 milhões de brasileiros utilizando 276 milhões de conexões móveis à internet. Pois é, há mais celular com acesso à internet do que gente no Brasil. Do total de brasileiros, 54% são considerados usuários ativos de internet.
 

Agora vamos fazer outro exercício (lá vem ele de novo!): qual conexão é mais confiável em Colinas ou na cidade em que você esteja por esse Maranhão a dentro? Pois assim como você, a maioria deve responder que é mais fácil acessar a internet pelo celular do que em casa, devido à precariedade das conexões. Fibra ótica, pasmemos, é artigo de luxo em nosso estado. O resultado: conexões “via rádio” ainda são o maior sucesso, com velocidade de 2mb vendida a preço de ouro.
 

Em relação ao tempo gasto com mídias, ou seja, a quantidade de horas que passamos em frente à TV ou ao computador, acredite: o relatório garante que já passamos quase o dobro de horas acessando a internet do que vendo televisão (até no horário da novela?). São mais de 5h diárias (5h 26m) conectando a internet, frente a menos de três horas (2h 49m) na frente da TV.
 

E nesse tempo todo que você fica acessando a internet, quase quatro horas são dedicadas às redes sociais. Seria uma nova forma de “dar fé da vida alheia”, como diriam nossos avós?
 

 

 

marcos

Marcos Franco Couto é filho dos colinenses Washington Couto e Maria de Jesus Couto. Formado em Jornalismo pela Ufma, foi diretor de jornalismo da TV Band em Imperatriz e Editor-chefe do jornal Correio de Imperatriz. Hoje trabalha com jornalismo e redação publicitária com ênfase em marketing político.

11/05/2015 - Política e Universidade

Escrito por Segunda, 11 Maio 2015 08:57

Política e Universidade 

 

            Peço licença aos leitores do portal da TV Consolação para tratar de um assunto que não diz respeito diretamente à nossa antiga Região do Médio Sertão Maranhense. Antiga porque o governo do estado alterou, há alguns anos, a subdivisão regional do Maranhão e o médio sertão soa hoje mais geográfico do que cartográfico.

            Quero tratar da relação entre as eleições nas universidades federais e a política partidária, corriqueira, cotidiana. Lembro que a citada região é uma das que têm pior atendimento pelas instituições federais de educação no estado. Sem campus, sem cursos...mas disso trataremos um outro dia.

            Estamos no meio da campanha para o processo eleitoral que vai indicar listas tríplices para que a presidente da República escolha os futuros reitor e vice-reitor da UFMA. Eu tenho e defendo um candidato, mas não tratarei dele aqui.

            O que me chama a atenção é como se reproduzem, naquele ambiente que deveria ser um centro de excelência, de debate de ideias, de formação social, as mesmas práticas da pior política que existe na sociedade em geral. Conchavos, barganhas, dossiês, picuinhas, acordos vantajosos financeiramente e péssimos institucionalmente, financiamentos mais do que duvidosos de campanhas, divulgação de notícias falsas para atingir adversários acontecem a olhos vistos...e não acaba por aí.

            Até um partido político entrou na campanha para garantir o seu naco de poder.

            Apesar de não acreditar em partidos políticos  o único em que acreditei, que foi o PT, perdeu minha confiança ainda nos primeiros acordos espúrios que fez com os conservadores, muito antes dos mensalões e petrolões – nada tenho contra quem neles acredita, e milita. Eles estão naturalmente dentro das universidades como estão em outros setores da sociedade. E isso não é ilegítimo.

            Mas a campanha dentro das universidades deveria prezar pela ética, respeito aos adversários,  privilégio ao debate, tudo suprapartidariamente. Mas não é o que acontece. As mesmas práticas que vemos ser combatidas (por poucas pessoas, mas combatidas) nas campanhas eleitorais regulares se reproduzem nas campanhas dentro das universidades, igualando por baixo aquilo que deveria ser o topo da democracia e da participação, pois se tratam de eleições em instituições de ensino.

            Assim o Brasil não muda. Assim os políticos danosos se reproduzem, e as suas políticas também. Assim a universidade sofre. Assim ela se enfraquece.          
 

         

        

Carlos Agostinho Couto

Jornalista, doutor em Políticas Públicas e professor do

Departamento de Comunicação Social da UFMA

 

29/04/2015 - O MELHOR DO PIOR?

Escrito por Quarta, 29 Abril 2015 09:27

                                  O MELHOR DO PIOR?

Não pode ser esquecida facilmente a divulgação da edição 2013 do Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM Por Escola, no dia 22/12/2014. Os dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) revelavam a tragédia da educação em nossa região. Recapitulemos: nossa região possui as três escolas do ensino médio com pior média do Brasil. Sediadas nos municípios de Jatobá - Centro de Ensino Aluízio Azevedo -, Mirador - Centro de Ensino Edson Lobão, anexo Coco e Anexo Ibipira - e Buriti-Bravo - Centro de Ensino Leda Tajra, Anexo Juçara.
 

Desde então, tivemos que conviver com a incômoda situação do Centro de Ensino Aluízio Azevedo, de Jatobá, como a pior escola do Brasil, noticiada amplamente na imprensa nacional. Aliás, uma injustiça, na medida em esse dado esconde a grave situação das demais escolas da região. Explico: apesar de estar classificado em último lugar no ENEM 2013, o Centro de Ensino Aluízio Azevedo não pode ser considerada a pior do Brasil, nem da região (os desempenhos alunos desta escola no exame da UEMA são reveladores). A maioria das escolas da região (quiçá também em outras regiões do Maranhão)  sequer fizeram o dever de casa, o de atender aos requisitos mínimos para participar da avaliação. Um jeito de não aparecer na rabeira da classificação.
 

 A participação no exame é de caráter voluntário. Mesmo assim, o Centro de Ensino Aluízio Azevedo juntou-se às 14.715 escolas de todo o Brasil que atenderam aos requisitos mínimos para serem avaliadas. Ou seja, que apresentaram, pelo menos, dez alunos concluintes do ensino médio participando do ENEM 2013. E os participantes representaram, pelo menos, 50% dos concluintes da escola, considerando os dados do Censo Escolar 2013. A maioria das escolas de nossa região não atendeu a tais requisitos, logo não entrou na classificação. Exceção das escolas citadas acima, as demais esconderam sua própria realidade, que tanto pode ser melhor, quanto pior do que aquelas que assumiram o risco de serem expostas à condição de piores do Brasil.
 

Os registros do próprio INEP indicam outros três municípios da região onde nenhuma escola sequer atendeu aos requisitos mínimos. Passagem Franca, Pastos Bons e Colinas teriam que se desculpar com Jatobá. Das quatro escolas públicas estaduais de ensino médio de Colinas, por exemplo, nenhuma está presente na lista divulgada pelo INEP. Situação semelhante àquela dos municípios de Passagem Franca e Pastos Bons, com duas escolas cada e nenhuma incluída na avaliação.
 

A isenção dessas escolas (proposital ou não) da avaliação do ENEM as isenta de críticas, sem dúvida. Mas, não esconde um drama real que tem como desfecho a exclusão de uma geração de jovens (certamente pobres). Como não fizeram o ENEM, perdem eles o direito ao ingresso em instituições públicas (UFMA, IFMA), à participação em programas de intercâmbio (Ciência sem fronteiras), à obtenção de bolsas (PROUNI) e financiamento em instituição privada (FIES). Na prática, levanta-se uma barreira de exclusão tão sólida quanto necessária para manter a miséria que alimenta os privilégios da politiquice cobiçosa. E assim, sorrateira, arrastando-se por trás das prateleiras empoeiradas da omissão, floresce a miséria que retroalimenta a roda de pau do Maranhão miserável.
 

Com a proximidade das eleições para diretor de escolas estaduais de ensino médio, tem-se a oportunidade de retomar o debate. Além da participação no ENEM, questões como calendário escolar, deficiências advindas do ensino fundamental, transporte escolar, política de criação de “anexos”, enigmas e destinos da juventude, devem se juntar a tantas outras na reflexão sobre os rumos da nossa escola e de nossos jovens estudantes.
 

 Pais, professores, estudantes e servidores devem entender esse momento como uma oportunidade que vai além da escolha de um novo diretor. Cada um a seu modo, é o momento de nos implicarmos na discussão do futuro de nossa região. A plateia desse concurso sórdido de melhor do pior do Brasil certamente não é o lugar que queremos.  

 

 

22/04/2015 - E esse tal de zapzap?

Escrito por Quarta, 22 Abril 2015 14:59

E esse tal de zapzap?
 

Pode colocar a cabeça pela janela, ou checar na sala de casa mesmo, no quarto dos filhos. Neste exato momento, pra onde você se virar provavelmente tem uma pessoa com os olhos fixos numa tela de smartphone. Sobretudo a juventude. Mas também os de meia idade.
 

O Brasil encerrou o ano de 2014 como o sexto maior mercado dos “telefones inteligentes” do mundo, com quase 39 milhões de usuários. E junto com esse número é proporcional o uso do aplicativo WhatsApp (zapzap entre os íntimos). Os dados são do IDGNow.
 

De acordo com o presidente-executivo da empresa, Jam Koum, hoje são mais de 700 milhões de usuários do aplicativo de comunicação instantânea em todo o mundo, com tráfego diário de 30 bilhões de mensagens trocadas. Aí você pergunta: e o que eu tenho a ver com isso?
 

A resposta é: depende de como você utiliza essa ferramenta, ou aplicativo. O uso das novas tecnologias pode ser bastante útil a qualquer pessoa, seja no ambiente de trabalho, no ambiente escolar ou nas relações sociais. Diversas empresas já utilizam os aplicativos de mensagem instantânea, como o WhatssApp, para se comunicar com seus funcionários através dos grupos. Assim também são as turmas de estudantes ou de amigos. Mas até onde isso pode ser bom?
 

A nova resposta: até o momento que não atrapalhe a sua vida real. Depois de olhar para os lados e ver em suas próprias relações o uso intenso dos smartphones, vamos agora pras ruas. Pode ser ali mesmo na praça, ou na pizzaria mais próxima, no restaurante que você frequenta com os amigos. É fácil ver uma rodinha de amigos em conversas virtuais, cada um com seu zapzap aberto, teclando com alguém que está ali na outra rua. E entre si, nenhum olhar.
 

Até os casais de pretensos namorados se conhecem hoje pelas redes sociais, trocam coraçõezinhos pelos celulares, beijos pelos tablets, abraços pelo facebook. Paqueram pelas ondas da web e mandam animações virtuais em vez de sussurrarem poemas no ouvido. Fico imaginando como será no futuro.

Bjs e abçs.
 

 

 

marcos

Marcos Franco Couto é filho dos colinenses Washington Couto e Maria de Jesus Couto. Formado em Jornalismo pela Ufma, foi diretor de jornalismo da TV Band em Imperatriz e Editor-chefe do jornal Correio de Imperatriz. Hoje trabalha com jornalismo e redação publicitária com ênfase em marketing político.

Cem dias de governo: pouco a comemorar

 

            Não é digna de crítica a mobilização feita pelo governo estadual para comemorar os feitos dos 100 primeiros dias de governo; nem se pode dizer que nada foi feito, pois, entre anúncios e fatos, medidas foram tomadas. O governo está longe, entretanto, de merecer uma análise positiva no sentido de mitigar as mazelas do estado.

         Um programa específico para atender as cidades com menor IDH está mais do que correto, mas ainda longe de apresentar resultados; a contratação de servidores para o quadro efetivo, que aguardavam a chamada, é bom, mas não atende ainda as necessidades em várias áreas; organização de atividades de segurança é correto, mas os resultados ainda são pífios; convênios com algumas prefeituras para pavimentação são coerentes, mas não atendem ainda nem 10% das cidades; notícias de moralização na saúde são alvissareiras, mas a manutenção da contratação de organizações sociais indica que os possíveis esquemas podem não ter terminado; anúncios de construção e recuperação de estradas, escolas, pontes etc são animadores, mas nada ainda foi entregue, a maioria nem começou.

       Por enquanto, o que podemos visualizar ainda está no campo das intenções. Não se pode afirmar categoricamente que o governo erra, mas defender que acerta seria uma opção arriscada e baseada em pouca coisa de concreto.

     O Maranhão atravessa uma crise importante e pouco se fala nisso. Duas das maiores contratadoras privadas de trabalhadores - Vale e Alumar – estão demitindo assustadoramente, projetos apresentados como desenvolvimentistas estão suspensos, como a refinaria fantasma de Bacabeira, ou com graves problemas, como a fantástica exploração de gás e instalação de termelétricas no centro do estado, que esbarram em toda a sorte de abusos ambientais e sociais. Essa discussão tem que entrar na ordem do dia, pois o Estado não deve apenas atuar de forma assistencialista, embora a atenção social seja uma sua obrigação.

          A comemoração, portanto, foi midiática, meio que um rito de passagem. Tem sua importância política, também para a motivação dos governistas e para dar alguma satisfação para a sociedade. Aguardemos os 300 primeiros dias para percebermos se algo melhorou de fato, com dados e números.

 

Foto 1Carlos Agostinho Couto
Carlos Agostinho Couto é neto e filho de colinenses. Graduado em jornalismo, é professor da UFMA e interessa-se por cultura, economia, política e literatura.

07/04/2015 - O ministro filósofo

Escrito por Terça, 07 Abril 2015 15:34

A nomeação do professor-titular da cadeira de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo, Renato Janine Ribeiro, para Ministro da Educação repercutiu bem no meio acadêmico. Autor de livros como "A sociedade contra o social: o alto custo da vida pública no Brasil" (2000, Prêmio Jabuti de 2001) e "A universidade e a vida atual - Fellini não via filmes" (2003), “O afeto autoritário” (2004), “A ética na política” (2006) e “Política para não ser idiota” (2012), este com Mário Sergio Cortella, o filósofo tomou posse como ministro no dia 06 de Abril.
 

Com um perfil diferente de seus quatro antecessores no ministério, Renato Janine candidatou-se apenas a um cargo eletivo, sem sucesso. À presidência da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), de cujo Conselho e Diretoria fora membro. Ocupou também cargos de fomento de pesquisa e avaliação educacional, como o Conselho Deliberativo do CNPq e a Diretoria da Capes.
 

Parece sensato que alguém com este perfil seja conduzido ao cargo de Ministro da Educação. Perfil que a política brasileira costuma tratar, pejorativamente, como “técnico”. Como exceção à regra de se nomearem apenas “políticos”. Regra de escolha, amiúde, partidária, como todos nós sabemos. Evidentemente, obedecendo a critérios de rateio do governo com “apoiadores” de campanha.
 

Curiosamente, a escolha de um perfil acadêmico para o cargo coincide com a imensa crise política por que passa o país. E com o rotundo fracasso de um político de carreira, que foi alçado ao ministério mais pela prudência política do que pela envergadura intelectual, ou pelo percurso na área.
 

A despeito de seu perfil “técnico”, Janine Ribeiro, um dos maiores estudiosos brasileiros de Thomas Hobbes, é uma personalidade tão antiga quanto atual na reflexão política brasileira. Recolho aqui o artigo “Corrupção em casa: os perigos do universal”, publicado em O Estado de São Paulo de 16 de fevereiro de 1990. Republicado em “A ética na política” (Lazulli Editora, 2006).
 

 Nesse artigo, Renato Janine comenta dois episódios de desvio de dinheiro público na gestão municipal do PT, em 1989. O pagamento por empresaspúblicas municipais de São Paulo de uma viagem de trabalhadores sem terra e de um curso sobre sindicalismo. Ante as conhecidas praticas do então governador Paulo Maluf (aspirante à sucessão presidencial indireta em 1984, enviara flores pagas com dinheiro público às esposas de políticos, antes de uma convenção partidária que definiria o candidato), Janine admitia duas atenuantes morais que diferenciavam o episódio no governo petista das práticas malufistas, comuns na política brasileira. A primeira atenuante, o PT tomou a iniciativa do debate interno e da punição dos envolvidos. A segunda, o dinheiro destinou-se a causas políticas e não a pessoas.
 

Pondera, contudo, esta segunda atenuante. Avalia como o componente mais grave: “que militantes de esquerda possam achar que, ao canalizarem a função pública (e verbas oficiais) para um uso partidário, e não para vantagens pessoais estejam acima do Estado de Direito”. Distingue uma particularidade naquele episódio petista, em relação à velha tradição brasileira da corrupção e do patrimonialismo. O problema estaria noutro lugar. Em crer que esse tipo de desvio estaria justificado pelo objetivo de defender interesses “universais”. Essa ideia teria como fundamento a concepção de que a classe operária é “o sujeito que resgatará a história de sua parcialidade”, o sujeito Universal. Assim, em nome da emancipação da classe trabalhadora, em nome do sujeito Universal, as regras da Administração pública poderiam ser relaxadas.
 

Com muita antecedência histórica (o artigo é de 1990) o filósofo alertava para o que se tornou recorrente hoje em dia. O aprofundamento de uma prática de ruptura da fronteira que distinguia a esquerda da mais velha tradição brasileira de corrupção e patrimonialismo. A partir daí, em nome do operariado, portador do universal, todo ato político se justificaria eticamente como estratégia.
 

Onde estaria o erro - ou o autoengano? Segundo Janine Ribeiro, em não se enxergar como a experiência histórica e o mundo contemporâneo tem demonstrado a falência da concepção de que o operariado traz consigo o Universal, o bem comum (crise do socialismo real, potencialização da Ideologia burguesa através da mídia, prevalência da tecnologia sobre a força de trabalho humana, etc.)
 

Os fatos históricos do Brasil, decorridos desde a publicação do artigo de Renato Janine, confirmam seus argumentos. Acrescentaria de minha lavra uma opinião: o fracasso da emancipação da classe trabalhadora como representação do Universal legou à esquerda uma confusa racionalidade populista. Assim, as “conquistas populares” mantiveram-se como forma de justificar toda prática política.  A ascensão do Partido dos Trabalhadores ao Governo, por efeito do desencanto neoliberal, trouxe todos os ingredientes que fazem o episódio de 1989, na prefeitura de São Paulo, parecer inocente. Um pecado menor, mas que continha em si o germe de sua posterior manifestação exuberante.  
 

O professor de ética e filosofia Renato Janine Ribeiro não é apenas uma escolha “técnica”, mas a possibilidade concreta se reatar os laços com o debate filosófico e ético na política. O simples fato de alguém com essa capacidade de análise política ter aceitado o cargo nos faz crer que há vida no governo Dilma.
 

Que o erro político de consequências éticas do Partido dos Trabalhadores, previsto pelo filósofo, não devore a possibilidade de experimentarmos os efeitos de sua filosofia e de sua ética na gestão da educação brasileira!

 

 

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