Quarta, 16 Janeiro 2019

SOBRE ÉTICA E ESTÉTICA NAS ELEIÇÕES

Escrito por  Publicado em Ponto de Vista Domingo, 31 Agosto 2014 22:58
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Todo período eleitoral é rico por nos proporcionar – além do ufanista discurso de defesa da democracia nacional – a oportunidade de observarmos comportamentos. Dos candidatos, dos eleitores, da mídia, dos analistas, até dos “experts em marketing eleitoral”, surgidos às dezenas nesse período, podemos extrair coisas pela observação.

 

Chama a atenção nas últimas eleições a subversão de certos comportamentos éticos e estéticos em relação a eleições anteriores, principalmente em relação às primeiras experiências eleitorais pós-1988.

 

As campanhas de há alguns anos traziam fortemente marcados comportamentos diferentes dos atuais. Do lado ético: quem era de partidos emergentes, com vínculo com os movimentos sociais e vistos como mais à esquerda se orgulhava por defender causas como as dos trabalhadores, dos desassistidos, dos sem-terra, das minorias (muitas vezes majoritárias) como as mulheres, negros, homossexuais etc. Para isso, utilizavam-se discursos inflamados e tinham-se como referência de campanha as reuniões de base, o apoio de sindicalistas combativos, as organizações autônomas da sociedade.

 

Alinhar-se ao discurso dos poderosos então, nem pensar. Fazia-se exatamente o contrário. Tudo isso redundando em caminhadas, passeatas, comícios e, entre outras coisas, atividades para arrecadação de fundos de campanha como festas, almoços, livro de contribuição, rifas, sorteios e a tradicional caixinha entre amigos e simpatizantes.

 

Preponderava no discurso os posicionamentos contra a ditadura, seus efeitos e herdeiros, quase de maneira redundante. Nos últimos anos vê-se que alguns daqueles partidos já não se utilizam desses expedientes. Campanhas ricas, assessorias caríssimas, discurso de moderado a conservador, fugindo de temas hoje considerados espinhosos, como a defesa do trabalho e o combate ao conservadorismo político, e muito, muito dinheiro que não sabemos bem de onde vem para aparecer bonito na TV, elegante, com ar de burguês e para ostentar poder.

 

Ter sido aliado da ditadura em tempos outros não parece ser tão ruim assim hoje em dia para esses partidos. Não parece uma subversão ética? No mínimo, submissão.

 

Do ponto de vista estético, as mudanças são agressivas.  Via-se naqueles partidos chamados então de progressistas campanhas quase amadoras, mas marcadas pela participação de pessoas fiéis a causas e ideias. Fusquinhas, brasílias, bicicletas, carros-de-som que quebravam no caminho, faixas pintadas à mão, panfletos (o que hoje chamamos de “flyers”) mimeografados ou feitos em gráficas com menor recurso técnico e com menor preço. Juntavam-se a isso muitos sonhos, muita animação e militância. Nos retornos e esquinas candidatos, amigos, partidários e simpatizantes se desdobravam para conquistar o voto, geralmente denunciando as mazelas da política tradicional.

 

Mais um dado: quem recebia uma bandeira para agitar nas concentrações tinha que devolver ou comprometer-se a trazê-la na próxima manifestação.

 

Os candidatos que tinham carro próprio geralmente os viam reduzidos a peças de pouco valor no final da campanha, de tão desgastados. Sim, pois os carros dos candidatos também participavam da campanha. Os programas de TV e rádio eram feitos geralmente por algum militante ou simpatizante que trabalhava na área e careciam de recursos técnicos.

 

Hoje assistimos a um desfile de profissionalismo nas campanhas. Vídeos caríssimos e bem produzidos, com pessoas famosas contratadas a peso de ouro. Centenas de carros-de-som novos e com estrutura nunca antes imaginada para um partido tido como popular.

 

Farto e sofisticado material de campanha, inclusive com a projeção gráfica dos sonhos, às vezes mirabolantes e planejados apenas para causar impacto, supostos pela sociedade ou inventados por “marqueteiros”. A militância virou “militância”, entre aspas, pois foi substituída por pessoas pagas para distribuir papéis e agitar bandeiras. Percebe-se ali a cara da necessidade e não de uma opção política.

 

Contratam-se desempregados como apoiadores para lotar os retornos com as cores dos partidos e candidatos e ganham-se uns votos a mais, por razões óbvias. Ah, o material de campanha nunca será insuficiente, sempre tem mais.

 

Para ser candidato por um partido com perfil combativo era necessário ser militante. Líderes comunitários, sindicalistas vistos como honestos, pessoas ligadas às lutas sociais compunham o grupo autorizado a se candidatar. Todos eram conhecidos pela coerência e participação.

 

Os candidatos de hoje não se sabe bem quem são, claro que com exceções, bravas exceções. Basta um chefão mandar os partidos aceitarem uma filiação e o antes inadmissível acontece. Alguém se candidata pelo desejo pessoal ou do seu grupo, não mais pela coerência política.

 

Os veículos envolvidos nas campanhas são também sintomáticos da mudança. Além da farta disponibilidade de carros contratados (som, apoio etc...) percebe-se uma enorme quantidade de carrões importados, e sempre com o ar-condicionado ligado, enfeitados com a campanha de candidatos que antes diziam defender, por exemplo, os trabalhadores.

 

Chega a ser contraditório um candidato ter à sua disposição uma frota de veículos dos mais caros vendidos no país e dizer-se representante verdadeiramente popular. Que se saiba, os trabalhadores não ficaram tão ricos assim e os poderosos não viraram socialistas de uma hora para a outra.

 

Não se trata de nostalgia ou romantismo, as coisas mudaram, a tecnologia ficou mais barata e próxima de todos. O país cresceu e alguns tiveram melhorada a sua qualidade de vida do ponto de vista material. Isso tudo teria que, de maneira quase obrigatória, refletir-se nas campanhas eleitorais.

 

Mas as posturas ética e estética mudaram, evidentemente, a olhos vistos. 

 

Foto 1Carlos Agostinho Couto
Carlos Agostinho Couto é neto e filho de colinenses. Graduado em jornalismo, é professor da UFMA e interessa-se por cultura, economia, política e literatura.

Ler 1110 vezes Última modificação em Domingo, 31 Agosto 2014 23:03
Redação TVC

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