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26/05/2015 - Festa do Divino: uma utopia

Escrito por  Publicado em Ponto de Vista Terça, 26 Maio 2015 14:17
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                                              Festa do Divino: uma utopia
 

A Festa do Divino Espírito Santo, periódica nos meses de maio, ainda é uma tradição viva do Brasil. No Maranhão, manifesta-se singular no sincretismo do Tambor de Mina. Na beleza e na história da povoação de Alcântara descobriu seu palco principal.
 

Parte do simbolismo presente na festa - a pomba branca, a coroa e a distribuição de esmolas - remonta a suas origens lusitanas, no século XIV. Em 1320, durante o período do culto de Pentecostes, D. Isabel de Aragão, rainha de Portugal prometera ao Divino Espírito Santo peregrinar pelo mundo com uma réplica da coroa e sobre esta uma pomba, alegoria do Divino Espírito Santo. Arrecadaria, assim, donativos em benefício dos pobres, caso o rei D. Dinis se reconciliasse com seu filho legítimo, D. Afonso, herdeiro do trono.
 

Há, porém, outra versão dessas origens, mais simpática e que não exclui a anterior. Encontrei-a no livro “O Povo Brasileiro” de Darcy Ribeiro, esse extraordinário pensador do Brasil. Essa versão situa-se numa doutrina herética criada por Infante D. Henrique, príncipe português do século XV, e consiste, em resumo, no seguinte. Segundo a crença de Dom Henrique, primeiro, teria havido um tempo do Pai, o Deus narrado no Antigo Testamento. Depois, um tempo do meio, tempo do Filho, de que fala o Novo Testamento. Então, teria chegado o tempo do Espírito Santo. O tempo de se construir o paraíso na terra, como um projeto utópico, de um mundo governado pela infância. Um tempo de inocente beleza, de solidariedade e de liberdade que caberia aos homens construí-lo.
 

O filósofo e poeta português Agostinho da Silva, estudioso das origens da festa em Portugal - da qual, aliás, sua filosofia deriva –, descreveu os pontos de representação desta utopia em três atos da Festa: primeiro, nas pequenas comunidades, escolhe-se um menino que é levado à igreja para ser coroado imperador do mundo, conforme a crença de que, no tempo do Espírito Santo, o mundo seria governado por um menino. Em seguida, é ofertado um banquete gratuito a todos da comunidade. Por último, o menino imperador vai com sua comitiva à prisão do lugar e liberta todos os presos. Simbolizavam-se, com esses três atos, as principais teses presentes na utopia do Tempo do Espírito Santo. A entronização do menino como guia do mundo simboliza uma vida de contentamento e beleza; o direito de todos à alimentação gratuita, um tempo de fartura, solidariedade e igualdade social; e a libertação dos presos, um tempo justiça e compreensão, o fim do encarceramento.
 

A pressão eclesiástica sobre o culto do Espírito Santo determinou a perda de vitalidade da festa em Portugal, já em meados do século XVI. O culto só seria revitalizado nas colônias, como de fato ocorreu no Brasil. Talvez pelo caráter libertário da festa. Cuja simbologia utópica teria seduzido as populações desterradas e violentamente conduzidas à escravidão no Brasil. Daí sua herança cultural como manifestação sincrética nas Casas de Mina, como bem as descreve o emérito professor Sérgio Ferreti.
 

Agostinho da Silva construiu suas teses filosóficas baseadas na utopia da Festa do Divino. Numa delas afirma que a primeira coisa a se notar no ritual é seu caráter laico, relativamente apartado do culto de Pentecostes. Não é simplesmente a comemoração de uma data, mas a proposta de construção de um futuro. Uma utopia que cumpre aos homens construir hoje. Um tempo de garantia de infância digna.  Para permitir às crianças cumprirem a tarefa inarredável de dirigentes do mundo no futuro. Um mundo de solidariedade e compartilhamento das riquezas produzidas. Uma humanidade capaz de desenvolver sua capacidade de entendimento, em detrimento da punição, do encarceramento e da violência como solução de conflitos.
 

 Quando você for à festa do Divino Espírito Santo, relembre o sonho futurista do Infante Dom Henrique, do qual somos herdeiros. Não aquele futurismo da base de lançamento aeroespacial, pesadelo das populações afrodescendentes. Mas, uma utopia que nos cabe cumprir: futuro pros meninos, solidariedade farta, entendimento como caminho da liberdade.

 

 

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Redação TVC

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