Quarta, 16 Agosto 2017

03/06/2015 - A Violência e a Deturpação do Jornalismo

Escrito por  Publicado em Ponto de Vista Quarta, 03 Junho 2015 09:32
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A Violência e a Deturpação do Jornalismo

 

            Estou escrevendo um ensaio acadêmico que trata do conceito de jornalismo e da sua deturpação. Como o assunto é contemporâneo, vou resumi-lo nessas nossas páginas de debate.

            Temos assistido nos últimos anos ao crescimento da violência, principalmente nos maiores centros urbanos. Isso é de reconhecimento amplo e o Brasil é um dos países que lideram os índices de violência. Isso tem determinado um sem número de avaliações e sugestões para a resolução do problema. Uma delas é a ingênua impressão de que a penalização, como se adultos fossem, de adolescentes a partir dos 16 anos resolveria a questão.

            Há também a exploração midiática sobre o tema a gosto do freguês. O freguês, entretanto, não é a população ou os consumidores de veículos de comunicação, seja de papel, rádio, TV ou internet, mas os financiadores desses veículos. Assiste-se a uma exploração dos números e casos de violência a toda hora e em todo lugar. Existem jornais especializados e vários programas de TV nos quais a violência – de qualquer sorte – é a estrela.

            Conceitualmente, e de forma elementar, o jornalismo é uma forma de disseminação de informações para a comunidade a partir de pessoas e veículos que recebem uma procuração tácita dos consumidores para que sejam seus olhos e ouvidos a distância, já que não podem estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Nós acreditamos que o que é publicado seja verdade, pois delegamos aos jornalistas (e aos veículos) o papel de nossos representantes.

            Sabe-se também que boa parte dos veículos de comunicação (a chamada mídia) usa as informações e o jornalismo como uma forma de imposição do “consenso”, da sua visão da verdade. Publica-se o que o dono da empresa quer ou o que os seus financiadores determinam.  Isso na verdade seria um falso-jornalismo, é propaganda travestida de notícia.

            Pois bem. Juntando violência e divulgação de dados no Maranhão, percebemos que o jornalismo hora é visto como disseminador de informações para que a população construa o seu juízo de valor, hora é apenas um impositor propagandista de ideias, para formatar o tal consenso público, para forjar um grupo acrítico de adesistas.

            O mais grave é que os veículos se travestem de informadores ou impositores de acordo com a maré.

            Os veículos de comunicação, e seus jornalistas de blogs, que passaram anos maquiando/deturpando os números da violência, relativizando dados, dando voz somente a quem dirigia as políticas da área (imposição do consenso), hoje se apresentam como divulgadores ferrenhos de dados, como informadores da população, capazes de dar vez e voz às vítimas para demonstrar a gravidade da situação. Claro que não é preciso dizer que o interesse dos financiadores dos veículos, e a sua cor partidária, determinam a posição.

            Por outro lado, veículos que disseminavam informações, que expunham os dados, que pareciam esperar o fim de semana para relatar os números da violência crescente, as rebeliões, que tinham até uma espécie de contabilizador de casos (quantas mortes por dia, quantos assaltos por mês etc). Hoje, como estão sendo financiados pelos atuais detentores do poder, seja político, seja econômico, não expõem mais com a mesma ênfase os números e dão, quase sempre, primeiro a voz para a explicação e depois para os fatos, deturpando a verdade.

            Claro que a postura agrada às empresas, aos seus cofres e aos financiadores da propaganda, mas perde o jornalismo, perde a livre disseminação de informações e perde a população que, com um mínimo de senso crítico, percebe que no lugar de cidadãos em busca de informações são tratados como meros dados estatísticos. Apenas um número para a próxima pesquisa de opinião pública.

 

            

Carlos Agostinho Couto

Jornalista, doutor em Políticas Públicas e professor do

Departamento de Comunicação Social da UFMA

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Redação TVC

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