Quarta, 16 Agosto 2017

19/06/2015 - Estado antibiótico

Escrito por  Publicado em Ponto de Vista Sexta, 19 Junho 2015 20:10
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                                              Estado antibiótico
 

O desenvolvimento do primeiro antibiótico em escala industrial, em 1940, coincide, historicamente, com uma reação teórica veemente contra o Estado intervencionista e de bem estar social. Apenas quatro anos depois de Sir Howard Fleorey e Ernst Chain retomarem as pesquisas de Fleming e desenvolverem o uso terapêutico da penicilina em larga escala, Friedrich Hayek escreveu O Caminho da Servidão. O livro de Hayek contrapunha-se ao estado de bem-estar social, defendido pela social democracia moderada inglesa. Segundo ele, o estado intervencionista traria “o mesmo desastre nazista – uma servidão moderna”.
 

Apesar de dirigidas ao Partido Trabalhista inglês, nas eleições de 1944, as críticas de Hayek ganhariam grande impulso com a crise do modelo econômico do pós-guerra, em 1973. Baseada nas teses neoliberais de Hayek, a solução para aquela crise do capitalismo era simples: manter um estado forte o suficiente para controlar sindicatos (gênese do estado repressor de miseráveis criminosos) e anêmico em gastos sociais e intervenções econômicas. Garantidor sim da estabilidade monetária, mas à custa de forte disciplina orçamentária pública.
 

Desde a década de 70, este modelo neoliberal veio se tornando hegemônico no mundo. Mesmo governos de “esquerda” têm dificuldade de resistir ao tom inexorável de seus ditames. Seus mecanismos ideológicos conseguiram disfarçar em “fim da história” esse momento histórico do capitalismo moderno. Assim, enquadraram o tempo histórico no obsoletismo tecnológico. Nivelaram decisões governamentais a problemas de gestão; subjugaram projetos políticos a despachos de ministros da economia. Por outro lado, o novo crescimento do mercado, representado pela flexibilidade das tecnologias de produção e a expansão dos mercados financeiros empurram cada vez mais o homem comum para um abismo de exclusão e de psicopatologias endêmicas.
 

 Dessa forma, a liberdade de mercado está longe de significar a liberdade desses homens.  Pelo contrário, os defensores desse tipo de liberdade empenham-se em alardear o encarceramento de meninos como solução para a violenta crise social. Com medida assim, pretende-se combater ameaças que rondam shoppings, parques e condomínios, órgãos vitais de afirmação da exclusão social, templos da função simbólica diferencial do consumo.
 

As tendências destrutivas de uma competitividade insaturável, dentre outras moléstias, criam a exclusão daqueles que não atendem às expectativas do mercado. Para lidar com essa população de excluídos e corrompidos no jogo do consumo, soluções letais são cada vez mais utilizadas, como mostram os assustadores e crescentes índices de mortalidade em populações pobres no Brasil.
 

Excluir desse debate a responsabilidade do modelo neoliberal vigente equivale a inverter o efeito em causa. Fleming transformou o mofo residual de fungos presentes numa colônia de bactérias em penicilina. O neoliberalismo tenta fazer o inverso, transformar suas vítimas em algozes. Como solução para a violenta crise social, crianças e adolescentes são tratadas como microrganismos infecciosos que precisam ser eliminados do organismo social e entregues a um sistema prisional mortífero.
 

Como um excesso de antibiótico, a redução da maioridade penal causará mais doenças do que cura. Equivale a transformar o mofo residual do Estado de bem-estar-social na afirmação definitiva do Estado antibiótico. 

Por Jarbas Couto Lima

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Redação TVC

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