Quinta, 23 Novembro 2017

Ponto de Vista (31)

14/04/2014 - Informação na palma da mão

Escrito por Segunda, 14 Abril 2014 23:10

INFORMAÇÃO NA PALMA DA MÃO

 

 

Num tempo não muito distante, época em que prevalecia o rádio como único meio de comunicação acessível à população, as pessoas reuniam-se nas praças para assistir TV. Aqueles que beiram os cinquenta anos de idade lembram-se bem disso, certamente: era início dos anos 1980 quando as cidades do interior maranhense passavam a transmitir programação via satélite. Vivia-se uma grande revolução da informação. Hoje, a nossa juventude vive outra revolução: a das pequenas telas de tablets e smartphones que trazem um mundo de informações ali, à mão.

 

 

Quem nunca ouviu de seus pais e avós aquela velha frase: “antigamente era tudo mais difícil”? E era mesmo, pelo menos no que se refere ao recebimento e troca de informações. A única possibilidade de se manter informado era ouvir passivamente as rádios nacionais com frequência AM. E não se podia interagir, perguntar, questionar, ou como dizem os americanizados, estabelecer o feedback com essas rádios. Notícias dos parentes, amigos e namorados, somente por carta que demoravam uma eternidade para chegar ao destino.

 

 

Quem tem menos de trinta anos de idade não faz ideia do que é isso. A menos que goste, como eu, de sentar-se para ouvir as histórias de vida e os costumes da época da juventude de seus pais e avós. A juventude, essa vive num momento totalmente diferente. Por mais remota que seja a cidade e por mais remoto que seja o povoado nesta cidade, basta ter cobertura de uma rede de celular que o mundo apareça colorido em frente a uma telinha de quatro polegadas. 

 

Aquela antiga espera pela chegada das notícias com o carteiro está cada dia mais distante. Para saber o que se passa do outro lado do mundo não se espera semanas. Tudo é em tempo real. Recentemente, todos soubemos da tragédia do desaparecimento de um avião na Malásia ao mesmo tempo que os malaios viram a notícia pela TV. Para namorar, a juventude pode enviar mais que textos escritos e chegam a extrapolar trocando imagens íntimas, que sempre serão motivo de confusão ao “vazarem” para outros destinatários na grande rede.

 

 

A próxima revolução da informação deve estar aí batendo à porta. Quem poderá imaginar o que virá pela frente?

 

 

marcosMarcos Franco Couto é filho dos colinenses Washington Couto e Maria de Jesus Couto. Formado em Jornalismo pela Ufma, foi diretor de jornalismo da TV Band em Imperatriz e Editor-chefe do jornal Correio de Imperatriz. Hoje trabalha com jornalismo e redação publicitária com ênfase em marketing político.

06/04/2014 - O LIXO PODE NÃO SER UM PROBLEMA

Escrito por Domingo, 06 Abril 2014 21:28

O LIXO PODE NÃO SER UM PROBLEMA

 

            Uma das mais importantes questões da contemporaneidade é o debate ambiental. Os resíduos sólidos que todos geramos quando produzimos algo pelo trabalho ou quando consumimos produtos industrializados é algo com que precisamos lidar com clareza, paciência e um pouco de destreza.

            Sempre produzimos lixo, mas o processo de industrialização – que tanto melhorou a vida da população – contribuiu para aumentarmos a quantidade de lixo produzido por cada um de nós diariamente: embalagens de vidro, de metal, de plástico, de papel, por exemplo, tornaram-se recorrentes na sociedade, mas precisam ser corretamente descartadas. Há também os resíduos alimentares e de higiene que, já pelo processo de urbanização, também exigem cuidados no descarte.

            Antigamente produzíamos boa parte do que precisávamos, embora com limitações de consumo, próximo das nossas casas, na nossa região. Todos lembramos dos monturos que as famílias faziam nos seus quintais para o descarte de coisas inservíveis, pois não havia coleta de lixo e a quantidade de produtos descartados era pequena. Comprávamos o milho in natura, hoje compramos uma lata de milho no supermercado. A espiga que sobrava antigamente era muito mais facilmente absorvida pela natureza (nos monturos, por exemplo, que eram uma espécie de processo rudimentar de compostagem) do que a lata que levamos pra casa junto com o milho. Guardávamos as embalagens de vidro, as latas, as revistas para serem reaproveitadas colocando-se azeite, cachaça, farinha, grãos...para embalarmos encomendas, usávamos o papel de revistas e jornais antigos. Até para escrever usávamos papel guardado.

            Com o crescimento das cidades, e os já citados processos de industrialização e urbanização, quando aumentou a quantidade de material a ser descartado e as pessoas passaram a ter menos espaço em casa, optou-se pelos aterros sanitários, lugares sujos e muito mal administrados no mais das vezes. E que ainda concorrem para a degradação ambiental por conta do processo de decomposição e para a degradação humana representada pelos catadores que se misturam com urubus.

            Mas há saída: o lixo pode deixar de ser um problema. Basta as prefeituras incentivarem a coleta seletiva e providenciar o tratamento adequado de resíduos alimentares, de higiene e hospitalares. Isso pode deixar de ser apenas pensamento vinculado a ambientalistas lunáticos. Para incentivar a coleta seletiva, as prefeituras poderiam pagar pelo resíduo limpo (a CEMAR tem um projeto muito bem sucedido na área) que seria vendido para recicladoras. Isso incentivaria a coleta limpa pelo valor agregado, diminuiria os resíduos nos aterros e geraria renda para a população, principalmente a mais carente. Se a classe média achar que o dinheiro gerado seria pouco, poderia doar seu lixo limpo para os mais pobres.

            Usinas de tratamento e incineração de material hospitalar e lixo higiênico (papel higiênico, absorventes, algodão...) doméstico completariam o sistema junto com áreas amplas de compostagem de restos alimentares domésticos, de feiras e supermercados, que seriam misturados com terra, molhados e revirados frequentemente (a compostagem em um nível mais profissional) e virariam adubo que poderia ser usado nas plantas de áreas públicas, doado para as pessoas que têm plantas em casa e para pequenos produtores rurais.

            Se o investimento inicial parece ser alto, os benefícios na área de saúde da população, gastos com coleta e com aterros e geração de renda para os menos favorecidos já o justificam plenamente.

            Cidades que têm a tradição de serem polos de concentração de serviços e comércio, como a Colinas de meus pais, poderiam dar início ao processo e, quem sabe, virar referência e um entreposto de material reciclado na região. Basta vontade política, visão sistêmica e boa vontade real para com a população.

Foto 1Carlos Agostinho Couto
Carlos Agostinho Couto é neto e filho de colinenses. Graduado em jornalismo, é professor da UFMA e interessa-se por cultura, economia, política e literatura.

30/03/2014 - Degredados e Excluídos

Escrito por Domingo, 30 Março 2014 21:06

Degredados e Excluídos

 

 

        A terra natal é como o gosto da manga, o cheiro do caju, o calor do seio da mãe, nos acompanha durante toda a vida. Retornar a ela é como comer uma manga rosa, nos remete às maravilhas da infância. Mesmo a cidade atual (pujante, cosmopolita, progressista, motoqueira, populosa e poluída de todos os lixos) ainda nos remete àquela cidadezinha que pisamos com os pés descalços de menino. Cidadezinha pobre, cabocla, de poucas gentes, que desfilava bois encaretados e bandas fúnebres enquanto o comércio espiava respeitoso.  

 

 

            Apesar dos sabores das lembranças, muitos colinenses sentem-se hoje estrangeiros em sua própria terra. Acompanham as mudanças (nem sempre para melhor), com poucas chances de intervir. Lembram-se de que muitas transformações ocorreram nos últimos 40 anos. Quando eu nasci, por exemplo, só havia uma ponte de cimento, que leva à Trizidela, as demais eram de tábua. A grande reivindicação que vi nos anos 80 foi o asfaltamento da estrada para São Luís. Que finalmente chegou acompanhado dos primeiros sinais de televisão. A pobreza, a miséria a falta de assistência à saúde, no entanto, persistiram. Na educação continuamos tributários da experiência do CINEC, da década de 60.

 

 

Nos últimos dez anos de crescimento econômico do Brasil, com as políticas de distribuição de renda e estímulo ao consumo do governo federal, a cidadezinha de outrora inchou de tal forma que se tornou irreconhecível aos olhos de quem a viu menina-moça e cabocla. A cidade também se fez estranha para os colinenses que tiveram que deixá-la. Muitos se perceberam desconhecidos aos olhos da população atual. Como se a falta de memória da cidade quisesse renegá-los a um degredo sem fim.

 

 

Como nos municípios nordestinos do mesmo porte, a expansão econômica trouxe uma série de problemas. O principal deles foi a falta de capacidade para resolvê-los. Acontece que muito desses colinenses degredados encontram-se, hoje, em condições de contribuir com a cidade. Refiro-me a contribuições inteligentes, competentes e voluntárias movidas pelo amor à terra natal. Principalmente em relação aos setores profissionais que dominam. À margem de interesses pessoais e politiqueiros e integrados num programa transparente e bem administrado, suas contribuições efetivas se potencializariam. E daria ótimos resultados para a cidade. Assim, a exclusão deixaria de ser motivo para justificar (e até aumentar) o degredo a que muitos estão submetidos.

 

 

jarbasTexto escrito por  Jarbas Couto e Lima

Jarbas Couto e Lima, cientista social, especialista em psicolinguística, mestre e doutor em linguística pela Unicamp, professor de Antropologia da UFMA, natural de Colinas.

Pessoas Online

Temos 93 visitantes e Nenhum membro online

contador online gratis
V
isitantes - Desde 01/09/2011